5 às 5ªs – Biografias não autorizadas.
por Thiago
em 07/11/13

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A polêmica das biografias não autorizadas não é algo novo, muito menos privilégio das pessoas públicas aqui do Brasil. Antes de começar gostaria de colocar de forma breve minha opinião sobre o assunto.
Fazer uma boa biografia não deve ser nada fácil, contar a vida de alguém em detalhes é como uma pesquisa acadêmica de longa duração. Analisar o contexto em que o biografado viveu, a época, a esfera pública e privada do mesmo, e claro, ir além, buscar os diversos lados daquele “eu” analisado. O eu que o indivíduo mostra intencionalmente, o que é conscientemente ocultado, a imagem que os outros têm dele e aquele eu que até mesmo a pessoa, que é objeto da pesquisa, desconhece.

Não autorizar uma biografia é uma grande bobagem, isso só faz com que as pessoas queiram ler e saber o motivo da proibição. Se o autor escrever mentiras, alterar fatos, contorcer as coisas, processe. Uma pessoa pública, como artistas e políticos já tem de certa forma sua vida documentada, o pesquisador junta os dados sobre esse indivíduo e os torna um texto interessante, nada muito além disso.
Ninguém quer ler uma biografia “chapa branca”, onde a pessoa retratada parece um herói grego, como Aquiles. Queremos saber sobre seu calcanhar e não sobre suas grandes vitórias em batalhas.

No mercado literário americano costuma-se dizer que quem quer ler a verdade a respeito de uma celebridade deve procurar pela biografia não autorizada escrita por algum jornalista de boa reputação. As biografias não autorizadas circulam livremente no mercado americano, mas, ainda assim, lançar uma biografia sem autorização prévia do biografado nos Estados Unidos pode dar muita dor de cabeça, e elas chegam na forma de ações judiciais movidas pelo “dono” da história. Espero que aqui as coisas consigam fluir da mesma maneira, as leis estão ai pra isso mesmo, não é?

Vamos ver agora cinco biografias que geraram muitos problemas pelo mundo:

1 – A autobiografia de Howard Hughes – Clifford Irving.

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Este livro, mesmo denominado “autobiografia”, é um dos maiores casos de fraude da história. Nos anos 70, falsificando cartas supostamente escritas pelo excêntrico e misterioso milionário americano Howard Hughes, que viveu recluso durante os últimos 20 anos de sua vida, Irving, um modesto escritor, conseguiu convencer uma grande editora de que teria sido o escolhido pelo magnata para escrever suas memórias. Irving foi parar na cadeia, mas teve seus minutos de fama na capa da Times como “o vigarista do ano”.
Esta história pode ainda ser vista no documentário feito pelo cineasta Orson Welles denominado Verdades e mentiras, que fala sobre a arte e suas “falsificações”. Além disso, em 2005, no filme “O vigarista do ano”, dirigido por Lasse Hallström, Clifford Irving e seu golpe são interpretados por Richard Gere, melhor filme que o mesmo já fiz, ou pelo menos dos que eu vi.

2 – The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice – Christopher Hitchens

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Se quiser ler um livro polêmico de verdade, este livro e autor são perfeitos. Christopher Hitchens jornalista, correspondente de guerra e crítico literário, ganhou reputação por suas respostas engenhosas, críticas mordazes a personalidades públicas. Falecido em 2011, foi sem foi dúvida um dos homens mais polêmicos dos últimos tempos.
Neste livro ele nos mostra uma Madre Teresa as avessas, onde a mesma é retratada como uma oportunista política, acusada de não ligar ou cuidar realmente dos doentes, apenas alojá-los em um local imundo para esperarem a morte. Além disso é acusada de corrupção, por desviar dinheiro de suas obras de caridade para uma rede global de conventos.
Obs: o título em inglês “The missionary position” pode ser traduzido para o português como a posição sexual papai e mamãe.

3 – His Way: The Unauthorized Biography of Frank Sinatra – Kitty Kelley

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Kitty Kelley é uma das biografas mais “temidas” pelas celebridades americanas. Autora de diversas biografias não autorizadas que viraram best-sellers, como as de Jacqueline Kennedy Onassis, Nancy Reagan, Elizabeth Taylor e Oprah. Considerada por muitos como uma aproveitadora, se coloca como alguém que busca a verdade e a transparência.

Nesta biografia, da década de 80, onde o título ironiza um dos maiores sucessos de Frank Sinatra (My Way), a autora o retrata sem máscaras, assim como muitas biografias hoje o fazem, mas naquela época Frank não permitia que alguém não escolhido por ele escrevesse sobre sua vida. Aqui, o líder do Rat Pack, é retratado como um alcoólatra com ligações fortes com a máfia italiana e praticante da violência doméstica contra suas companheiras.
Antes mesmo do livro sair Frank processou a autora e fez o possível para que não fosse lançado, mas tempos depois desistiu do processo.

4 – Estrela Solitária – Ruy Castro

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Agora vamos falar de alguns livros brasileiros. A biografia de Garrincha feita por Ruy Castro nos traz uma outra discussão muito interessante. A família de um falecido, ou seja, seus herdeiros, tem direito em tudo o que for feito a respeito dele, mesmo que não seja a reprodução de sua obra e sim uma biografia? Existe um “dono” da história?
Em 16/10/2013, Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, editora responsável por este livro, disse no blog da mesma que:
” Quando o livro Estrela solitária estava para ser publicado, uma matéria foi veiculada no Fantástico chamando atenção para o livro. As filhas do Garrincha, que não haviam se manifestado até então, me procuraram, através de um advogado, e, sem ler uma página sequer do livro, demandaram pagamento de direitos e ameaçaram com um pedido de indenização.”
Neste caso, como demonstra no blog, o problema não era pelo livro denegrir a imagem de Garrincha ao tratar do fim de sua carreira e do alcoolismo, a questão era meramente financeira.

5 – Roberto Carlos em detalhes – Paulo Cesar de Araújo

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Não é possível falar sobre biografia não autorizada sem lembrar de Roberto Carlos e do triste episódio envolvendo Paulo Cesar de Araújo, jornalista e historiador que dedicou 15 anos de sua vida para realizar este livro.
A biografia foi lançada no fim de 2006 pela editora Planeta, mas foi tirado de circulação no primeiro semestre de 2007, e teve sua venda proibida no Brasil. Claro que podemos encontrar em alguns sebos alguns exemplares a venda, dos que foram vendidos entre a data de lançamento e de proibição. Hoje, como o livro voltou a pauta nos noticiários depois da polêmica da biografias, o preço de um exemplar usado pode variar de R$500,00 a R$800,00, mas se você quiser ler sem desembolsar toda essa grana não terá dificuldade de achar um exemplar em pdf na internet.
Para Araújo, em entrevista ao programa Roda Viva da Tv Cultura, a vida do cantor sempre foi um livro aberto, tanto por meio de suas músicas, como pela própria mídia. “Eu apenas explico aquilo que ele cantou em músicas e disse em entrevistas. Ele está mais do que acostumado a falar sobre a sua vida. No caso do meu livro, o que mais incomodou foi a existência de uma biografia não autorizada e com força no mercado. Ele não queria é que alguém ganhasse dinheiro com o nome dele”. O livro, como o próprio autor diz, tinha como objetivo explicar o fenômeno Roberto Carlos, contar sua vida, falar dos seus relacionamentos amorosos, da sua trajetória, de amizades e inimizades e de sua perna mecânica. Será que essas são coisas tão vergonhosas para se esconder?

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