A Dança Dos Deuses. Futebol, Sociedade, Cultura
por Thiago
em 13/06/14

Nota:

ArquivoExibir Embalado no clima de copa do mundo vamos falar um pouco sobre futebol? Não importa se você é a favor da Copa, da Fifa ou se quer que tudo exploda, não importa se vai torcer loucamente pro Brasil ou se vai torcer pra Argentina, o fato que você não pode negar é a importância do futebol para a sociedade brasileira. Eis aqui um sério livro de análise deste esporte.

O historiador Hilário Franco Júnior, de 2003 a 2005 ministrou, juntamente com Flavio de Campos, um curso de pós-graduação no departamento de historia da Universidade de São Paulo. Como conclusão deste curso Hilário Franco lançou em 2007 o livro intitulado A Dança Dos Deuses. Futebol, Sociedade, Cultura, o qual serve de referencia para esta reflexão. O livro esta dividido em duas partes, uma histórica e outra analítica.

Na primeira, Futebol, micro-história do mundo  contemporâneo, temos  a história mundial recente contada por meio do desenvolvimento do futebol, de esporte praticado pelas elites inglesas à diversão de massa. A chegada à América do Sul, a utilização política pelos regimes fascistas, seu papel na Guerra Fria e durante o Regime Militar brasileiro. O futebol contemporâneo, globalizado e milionário também é contemplado, fechando o circulo num apanhado bastante completo. Na segunda parte, Futebol, metáfora do mundo contemporâneo, Franco Júnior muda o tom.

Após debruçar-se sobre os fatos, o que passa a lhe interessar é a simbologia metafórica dos mesmos. Tendo esgotado a organização cronológica na primeira parte, a segunda estrutura-se em blocos de ensaios curtos e temáticos, onde o autor procura investigar o esporte como metáfora sociológica, antropológica, religiosa, psicológica e lingüística. E é através da ótica religiosa que pretendo prosseguir a resenha (sim, sei que pode ser diferente, mas quero focar o texto em um capítulo específico:  Futebol: uma metáfora religiosa.

Escolhi trabalhar desta forma pela complexidade e diversidade dos temas trabalhados no livro.) Propnho aqui uma leitura do que Jose Ortega y Gasset (ORTEGA Y GASSET apud FRANCO, 2007, p.258) diz ser a religião do século XX e que Eric Hobsbawn (HOBSBAWN apud FRANCO, 2007, p.258). chama de a religião laica da classe operária. Buscando para isso enfatizar a criação de ídolos como heróis, guardiões, defensores de algo sagrado para torcedores que buscam através do futebol saciar a angustia humana da busca de sentido. Em seu livro o autor trabalhará o futebol enquanto uma metáfora religiosa, seus aspectos sagrados no mundo contemporâneo, seu reflexo social dos mesmos, os ritos do esporte e sua relação com seus torcedores/seguidores, o crer e o torcer.

Não se tem a intenção de apresentar o futebol como uma religião e sim analisá-lo enquanto fenômeno, um intrigante fenômeno social que merece atenção. Não podemos também negar o lugar de destaque que o futebol encontra na atualidade, como fenômeno social, econômico e cultural, no mundo moderno, principalmente no Brasil, onde o mesmo acaba sendo bastante jogado e pouco pensado. Tais questões e suas razões recebem um olhar parcial, poucos estudos são encontrados acerca do tema, ainda mais quando pensamos o esporte como algo que pode ser considerado sagrado para alguns. Podemos encontrar outros esportes, além do futebol que tem esse efeito, como o basquete, baseball e futebol americano nos EUA, o rugby na Nova Zelândia, mas como esporte que mobiliza uma quantidade significativa de pessoas, em várias nações, temos o futebol. Hilário Franco nos diria que: Ninguém nega, sem dúvida, o lugar de destaque que o futebol ocupa no mundo contemporâneo. Nos cinco continentes ele mobiliza profissionalmente, de forma direta e indireta, dezenas de milhares de pessoas. Mais significativo, mobiliza emocionalmente várias centenas de milhões de indivíduos. Entretanto, as razões da força desse fenômeno tem recebido explicações apenas parciais, quando não superficiais.

Na verdade, o futebol desperta dupla reação, muito curiosa. De um lado, há quem veja nele atividade de espírito infantil praticada por homens adultos, desviados dessa maneira de tarefas produtivas e de ações sociais mais nobres. De outro lado, há parcela considerável d a população mundial que atribui a ele papel importante, se não central, na sua vida. A contradição esta no significado que – por razões ideológicas, sociais, culturais, religiosas, psicológicas – cada pessoa as práticas lúdicas em geral. (FRANCO, 2007, p.14). Freqüentemente o mesmo provoca um sentimento tão ou mais profundo que a religião e, tal como esta, é uma parte do tecido comunitário, um repositório de tradições. Mais do que um esporte, o futebol é um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo. Envolve interesses reais – capazes de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação.

Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e freqüentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões. Entretanto quais seriam suas origens? Hilário Franco nos dá um interessante olhar histórico sobre essa controversa questão, entretanto nos manteremos aqui as suas supostas origens que remetem a um simbolismo religioso: Diz uma lenda que na China, entre 2.000 e 1.500 a.C., guerreiros inventaram uma curiosa e macabra diversão pra relaxar após a tensão das batalhas: chutar o crânio de um inimigo procurando fazê-lo ultrapassar duas estacas de bambu fincadas no chão. Essa cruel comemoração derivou no século III a.C. para um exercício militar chamado tsu-chu, literalmente “chutar a bola”. Exercício cujo objetivo continuava ser a colocar a cabeça – a partir de então simbolizada por bola de couro de 22 centimetros de diâmetro recheada de crina – no vão de quarenta centímetros que separava as varas de bambu.

A movimentação envolvia de cada lado 12 jogadores, tanto quanto os signos do zodíaco, em um terreno de trinta por sessenta metros; havia, ainda, uma variante praticada em campoquadrado por oito pessoas em cada grupo. Nas duas modalidades o simbolismo cosmológico era claro, como mostra a descrição de um poeta do século II a.C.: “A bola é redonda e o terreno quadrado, como o Céu e a Terra. A bola sobrevoa como o Sol enquanto as duas equipes se enfrentam”. Importada pelo Japão no século II, a atividade manteve o nome, apenas traduzido (Kemari, igualmente “chutar a bola”), mas perdeu o caráter compititivo que tinha entre os chineses. Tornou-se um cerimonial em que a bola circulava entre oito jogadores sem tocar o solo. (FRANCO, 2007, p.15). Outros antepassados do futebol podem nos trazer também um certo aspecto sagrado, como o tlatchtli na América Central 900 a.c: Ele era disputado em espaço retangular de tamanho variado, entre 25 e 63 metros de comprimento, seis a doze de largura. Cada um dos dois grupos, geralmente de sete jogadores, deveria trocar passes sem deixar cair a pequena (entre quinze e vinte centímetros) e pesada (mais de três quilos) bola de borracha maciça, depois arremessada ao campo adversário.

Todo toque da bola no chão contava pontos negativos, que seriam anulados caso se conseguisse introduzi-la em um dos dois aros de pedra fixados nos muros laterais. Sendo na origem ritos de sentido cosmológico, razão pela qual ocorria em pátio que separava dois templos, parece que, ao menos no princípio, o capitão da equipe perdedora era sacrificado, na maioria das vezes por decapitação. Na verdade, essa descrição é de um modelo ideal que oculta muitas variações regionais e temporais. O próprio nome do jogo indica seu caráter inespecífico, pois vem do verbo tlachia, “olhar”, de forma que tlachtli deve ser traduzido simplesmente por “espetáculo”. (FRANCO, 2007, p.15,16). Várias outras formas em diferentes épocas e lugares podem remeter ao sagrado e podem também remeter a algo similar ao futebol moderno, este por sua vez,  inegavelmente, foi originado pelos ingleses (FRANCO, 2007).

Entretanto essa similaridade, por mais interessantes que possam ser são apenas especulações acerca de uma origem do esporte, as duas citadas nos parágrafos anteriores foram escolhidas pela sua aproximação com o sagrado. O futebol como conhecemos hoje, difere em muitos aspectos das especulações acerca de seus antepassados, tanto em regras quanto em costumes, além do mais jogos com bola são manifestações antropológicas, não especificas de determinado povo e determinada época, enquanto o futebol tal qual conhecemos hoje resultou de um conjunto de fatores presentes apenas na Inglaterra do século XX. (FRANCO, 2007). Para prosseguirmos com essa análise se faz necessário explicitar o que se entende aqui como religião e conseqüentemente como sagrado. Através de Durkheim podemos chegar a um ponto comum sobre os dois fenômenos aqui comparados, a religião e o futebol, afinal, ambas podem ser vistas como fatos sociais; e em As regras do método sociológico, Durkheim é categórico: “toda explicação psicológica para um fato social é necessariamente falsa”. Para ele então a religião como um fato social, deve ser analisada através do seu método sociológico, considerando como seu objeto de estudo apenas fatos sociais que ultrapassam as individualidades dos membros do grupo onde o fato social se da. Sobre essa ótica podemos perceber certos aspectos sagrados do futebol por alguns grupos que acabam se relacionando com reverência a certos aspectos de tal jogo.

Assim podemos fazer uma analogia entre futebol e religião como se o clube fosse a religião, os jogadores e treinadores os sacerdotes ou heróis e os torcedores os fiéis. Os jogadores por mais que sofram um processo de idolatria e comparados a deuses, é sabido pelos torcedores que jogadores vem e vão. Nos jogos do Real Madrid em seu estádio, ou templo, afinal é onde os fiéis se reúnem para orar pela mesma divindade, isto é, torcer pelo mesmo clube, aparecia uma faixa com o rosto de Zidane e escrito “Eres um dios”. No entanto, esses torcedores avaliavam de forma equivocada a condição religiosa do jogador admirado. Afinal, depois que ele se aposentou, os mesmo torcedores continuaram e continuarão a ir ao mesmo estádio para assistir as partidas do mesmo clube. O culto é ao clube. Os jogadores, do ponto de vista da cultura cristã, na qual o futebol se fortaleceu e desenvolveu, também as vezes são associados a santos, humanos que por certas características especiais ou feitos fazem a mediação entre os outros homens comuns e a divindade (clube).

Se preferirmos é possível adaptar o futebol a classificação dos seres proposta no século V a.c pelo poeta grego Píndaro em deuses, heróis e humanos. Sendo desta vez os primeiros seriam os clubes, seguidos pelos jogadores e técnicos e por fim os torcedores. Novamente na relação complexa entre esses seres, tanto na mitologia quanto no futebol, os heróis, assim como os santos, são aqueles que aproximam os primeiros dos terceiros. (FRANCO, 2007). Hilário Franco prossegue com sua comparação nos dizendo que se a rigor futebol não é religião porque, como observa o etnólogo francês Cristian Bromberger, “ele não nada sobre de onde viemos ou para onde vamos”, por outro lado ele “nos mostra quem somos, consagrando e teatralizando os valores fundamentais que moldam nossas sociedades: as identidades que se compartilham e com que se sonha, a competição, a performance, o papel da sorte, da injustiça, da trapaça, numa vida individual e coletiva”. E de fato a dupla etimologia de “religião” parece reconhecível no futebol: relegere,”recolher”, no sentido figurado “ler”, lembra todo gesto mais primário do jogo (obter a posse da bola) quanto o mais sofisticado (compreender de imediato as intenções do adversário, saber “ler” o jogo); religere, “ligar outra vez”, “unir”, remete a estrutura essencial do jogo ( que é coletivo, deve ser praticado em grupo) e ao seu gesto técnico mais importante (o passe que liga entre si vários jogadores).(FRANCO, 2007, p.265).   20100517_PensandoCopa_Hilario-Franco-Junior_Divulga.jpg_752291659

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