Dica de estreia – Coringa
por Ragner
em 04/10/19

Nota:

Tanto no cinema quanto nos quadrinhos, a história do Coringa passeia por construções diversas e não existe uma criação oficial. Há a Graphic Novel “A piada mortal” que se tornou cânone, mas o universo de personagens de quadrinhos é recheado de inovações. Em Batman de 1989 temos uma história e em O Cavaleiro das trevas de 2008 acompanhamos outra história (não de origem essencialmente), de um Coringa que se consagrou na cultura popular e agora temos mais uma narrativa que apresenta a origem do maior inimigo do Batman. Muita gente o considera o maior vilão dos quadrinhos.

Seguindo o conceito de A piada mortal, de que “um dia ruim na vida de um homem é a linha que separa a sanidade da loucura”, o filme vai além e apresenta um homem doente (com um transtorno emocional, que o faz rir descontroladamente em momentos inoportunos) e problemático, que tem a vida inteira ruim. Arthur Fleck – Coringa – é um homem fracassado, sem carreira, sem amores, sem qualquer conquista pessoal, sua vida representa escancaradamente a época caótica retratada no filme, que explora bem o desastre social ambientado em uma Gotham decadente de 1981.

Durante o filme somos envolvidos pelas derrotas do protagonista, e há o desejo de que alguma coisa possa salvá-lo. É tenso observar o quanto ele só sofre e como sua deficiência e inaptidão social é tratada com escárnio. Arthur trabalha como palhaço (em porta de loja e animador em hospital) e deseja participar de programas de palco como humorista de Stand Up. Mas suas gargalhadas fora de hora e dificuldade de convívio faz dele um refém do descaso e desprezo humano. É possível vislumbrar gatilhos para pessoas com graves problemas de aceitação e sociabilidade, mas o filme também deixa claro como Arthur se regozija com o mal que acaba de fazer (o nascimento do Coringa é perturbador). O filme, ao meu entender, não romantiza ou diminui o mal por causa da rejeição, pois deixa bem claro como os rumos dessas ações trazem consequências.

Há diversas referências ao universo do Batman, em cenas que remetem aos quadrinhos e filmes. E obviamente a outros filmes do cinema clássico, como Taxi Driver e O rei da comédia, entre outros (até temos a escadaria ícone de O exorcista). Essas alusões e ‘easter eggs’ deixam o filme ainda maior do que já é. É maravilhoso poder fazer ligações sutis e óbvias com o que conhecemos sobre o Morcegão e o cinema. Joker é uma ode ao que mais glorifica o Batman e ao próprio mundo da 7ª arte. A fotografia, o roteiro, as personagens e todas as particularidades que sustentam a fórmula de sucesso no universo cinematográfico, alcançam patamares altos e isso pode sustentar a teoria do filme ganhar alguns oscares (isso mesmo, no plural)

Joker é visceral, pesado, trágico, violento, tenso. Incomoda! O filme possui reviravoltas que me deixou arrebatado e presenças que me emocionou. Joga em nossa cara momentos que pode causar empatia com o futuro vilão, escancara uma verdade que impacta de uma maneira dolorosa, mas deixa claro o quanto tudo aquilo é errado. Há retratos angustiantes que podem machucar e perturbar o emocional de muita gente (saí da sessão chocado).

Joker é um filme que precisa ser assistido, discutido e apreciado.

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