Dica de filme – Marighella
por Ragner
em 02/12/21

Nota:

É de domínio público, dentro e fora do Brasil, que os anos comandados pelas forças militares foram anos de Ditadura. Tentar corrigir isso, desmentir ou criar narrativas de que houve uma revolução contra domínio Comunista é deveras fantasioso e só alimenta o caos causado pela pós verdade que sustenta o atual governo. Dito isso, a Ditadura militar no Brasil matou centenas de pessoas, torturou e destruiu vidas (com resquícios até hoje).

Wagner Moura, como um bom combatente ideológico contestador dessa época trágica, dirigiu o filme do guerrilheiro Marighella (político e escritor também) e escancarou as atrocidades governamentais daqueles tempos. Não que esse filme seja diferente, mas pela atual conjectura política e com um presidente que exalta louros da Ditadura, a atmosfera que gira em torno dessa produção cinematográfica, causa mais alvoroço e burburinho. Ponto positivo, para mim, e depois de assistir, ainda fiquei mais emocionado, mexido, incomodado e influenciado por tudo que diz respeito ao tempo tenebroso e turbulento que a nação vivenciou.

Marighella é um filme de grande duração (2h35min), algo não habitual no cinema nacional e trabalha algumas nuances do protagonista. Conta pouco sobre o lado político dele (como deputado), mas circula bem pelas camadas dele como pai e como revolucionário. Deixando claro ainda o quão guerrilheiro ele foi. Carlos Marighella foi um exemplo claro explicativo do Paradoxo da tolerância de Karl Popper (não tolerar o intolerante) e isso me ganhou de cara. E ainda é possível observar como era carismático, empático com a dor dos deixados à margem e preocupado com quem estava ao seu redor (paizão mesmo, não só do próprio filho, mas de seus companheiros guerrilheiros também).

O filme explora os anos pós prisão de Marighella, quando ele já era conhecido e passou a viver escondido. Toda sua luta para organizar uma resistência e combater a ditadura é escancarada no filme. Outras questões como sua conduta como político e intelectual não ganham importância (na minha opinião isso poderia ter sido melhor esmiuçado), mas o mais importante está na telona (o filme é uma baita declaração de guerra contra o discurso que insiste em diminuir as atrocidades da época) e é o que me ganhou de fato.

Marighella deveria estrear em 2019, contudo somente agora conseguiu chegar nos cinemas. Foi amplamente premiado internacionalmente, mas sabemos bem que (na atual conjectura política) ganha pouco espaço nacionalmente. Mesmo com um bom fluxo nas salas por onde passa. Marighella, o homem, recebeu anistia em 2011 e, sinceramente, o filme, creio, deve alcançar maior importância em anos futuros. Fica a dica.

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