Dica de filme – Você não estava aqui
por Bruno Lisboa
em 09/03/20

Nota:

Ken Loach é um cineasta que construiu ao longo de sua vasta carreia um cinema de militância, em prol de problematizar as dores do mundo. Para ele a arte tem um papel fundamental ao levantar discussões que visam, claramente, um diálogo aberto com a sociedade em prol das mudanças sociais.

Para o público brasileiro o trabalho que talvez tenha alcançado maior projeção foi justamente o seu filme anterior Eu, Daniel Blake (2016), obra em que Loach colheu os louros da fama as ser agraciado com a Palma de Ouro em Cannes. No filme o diretor utiliza do filme como instrumento de abordagem a temas ligados a compaixão, mercado de trabalho e a burocracia do sistema opressor britânico.

Três anos mais tarde Loach, hoje na casa dos 83 anos, voltou a ativa com Você não estava aqui, filme onde coloca mais em voga a marca latente de seu fazer artístico: usar do cinema como instrumento da reflexão visando a mudança de paradigma.

Dirigido de maneira semi-documental (usando essencialmente de planos fechados) numa clara tentativa de trazer uma veracidade ainda maior, temos a história ficcional (escrita por Paul Laverty) de uma típica família inglesa que luta, a duras penas, pela sobrevivência após o colapso financeiro que abalou o mundo em 2008 e jogou para linha da pobreza grande parte da população.

Para tentar sair desta situação, Ricky Turner (Kris Hitchen) busca no serviço de entregas autônomo uma solução rápida ante ao desespero de ver as dívidas crescerem. Sua esposa Abby Turner (Debbie Honeywood) é uma cuidadora de idosos e tem jornadas de longas horas até o retorno para casa. Seus filhos, o casal Seb ( Rhys Stone) e Liza (Katie Proctor), tentam seguir uma vida normal, num mundo onde a figura dos pais é ausente. E é nesta reconfiguração social é que reside o enrendo do filme.

Em sua essência, Você não estava aqui é uma porrada sobre os males do neoliberalismo, a precarização do universo do trabalho e os impactos deixados na sociedade. Principalmente nas relações humanas, que se tornam cada vez mais distantes, com impactos diretos na nova geração.

O modo operante criticado no filme é o fenômeno da “uberização” no qual uma falsa sensação de liberdade é criada, mas de fato o trabalhador é sujeitado a longas jornadas de trabalho, com metas infinitas, sob uma remuneração pífia e sem segurança, num processo análogo escravidão.

A ausência da figura paterna/materna traz em si a catástrofe de termos uma geração futura que irá crescer sem referência e noção de bem estar social, tendendo a repetir os erros cometidos por aqueles que deveriam servir de espelho e instrumento para a compreensão da sociedade.

A reflexão deixada é se a classe trabalhadora seguir paralisada ante ao desmonte das relações de trabalho seguiremos vendo os poderosos vencendo. Nunca a frase de Marx e Engels (“trabalhadores do mundo, uni-vos) fez tanto sentido. A ação de mudança e a consciência do que envolve a mesma é urgente.

Filmes como este e o documentário vencedor do Oscar deste ano (Indústria americana) tem promovido discussões pertinentes aos nossos tempos quanto aos rumos da sociedade. Mas a questão maior é: o mundo está ouvindo?

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