Dica de série – Chernobyl
por Patricia
em 10/06/19

Nota:

Em 2017, li e resenha “Vozes de Tchernóbil” da vencedora do Nobel, Svetlana Aleksiêvitch. Escrito 10 anos depois do acidente nuclear que afetou meio milhão de pessoas, ela concentra sua pesquisa nos relatos dos sobreviventes. O enfoque foi no poder da vontade dessas pessoas de sobreviver e voltar para sua terra.

A mini-série “Chernobyl” da HBO, lançada esse ano, tem um foco diferente. Ela aborda o acidente, a tragédia que se impôs na vida das pessoas da cidade, mas há um foco importante na responsabilidade das autoridades soviéticas em assumir o erro e corrigi-lo. Mas, claro, um acidente dessas proporções nunca acontecera antes…ninguém sabia exatamente como reagir.

O primeiro episódio já começa com o acidente. Vemos Liudmila e Vasily Ignatiénko. De longe, uma luz aparece no céu onde fica a usina nuclear. Em segundos, a terra treme. Tudo muda a partir daqui. Vasily é bombeiro e é chamado para conter o fogo na usina que, até então, ninguém imaginava ser tóxico. O fogo não podia ser apagado, os bombeiros começam a inalar resíduos a níveis altíssimos.

Liudmila está no livro de Aleksiêvitch e há também um documentário sobre sua vida. Isso porque em 14 dias, seu marido definharia e ela, grávida, estaria ao seu lado contra todas as recomendações médicas de contaminação. O marido morre e meses depois ela dá a luz a um bebê que vive quatro dias. A criança absorveu toda a radioatividade do pai (que deveria ter infectado a mãe). É um caso que representa o nível de atrocidade que virou Chernobyl.

Nos episódios seguintes, vemos dois cientistas e um político tentarem resolver um problema que ninguém nunca teve que resolver antes. Fechar um núcleo do reator que queima a céu aberto e joga no ar toneladas de toxinas. Em poucas horas, cidades a 4-5 horas de distância já recebem essas toxinas no ar. Estima-se que o equivalente a 500 bombas de Hiroshima tenham sido liberadas na atmosfera.

O que acompanhamos também é a dificuldade do governo e das forças soviéticas de aceitarem que poderia haver um problema real com os reatores fabricados no país. A dissolução ou o enfraquecimento da União Soviética já estava à vista e as preocupações políticas tomaram à frente de todo o resto. Gorbachev – Presidente da URSS na época – disse em 2006 que acreditava que o acidente havia sido o estopim final para a dissolução do país.

O que a série faz tão bem é trazer essa tensão entre o acidente, a ciência e a política. As cenas da explosão são fascinantes até mesmo para quem não é da área. A radiação era tão alta que nem mesmo robôs trazidos pra ajudar na limpeza conseguiram funcionar por muito tempo. Rodada como se fosse um filme de 5 horas (se você assistir os episódios em sequência, tudo se encaixa perfeitamente bem), a série consegue manter o ritmo e a curiosidade do espectador.

O último episódio, o julgamento, tem uma cena que resume muito bem o sistema soviético – um membro do Comitê Central passa por cima do juiz e decide com o advogado de acusação a direção a seguir. Com um elenco de primeira, essa é uma mini-série para devorar!

Os nossos segredos e nossas mentiras nos definem. Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Mais cedo ou mais tarde, essa dívida deve ser paga.

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