Netflix com o Poderoso – 13 Reasons Why
por Ragner
em 24/04/17

Nota:

 

Participação especial de Aline Mariana

1 – 13 Reasons Wyh, ou os 13 porquês, estreou no final de março e já se tornou uma sensação midiática. Mas não foi esse o motivo que me fez assistir. O seriado é sobre o suicídio de uma jovem após sofrer várias decepções que foram se acumulando até se tornar impossível continuar vivendo, ela conta como tudo isso aconteceu e como decidiu o que faria. O mote principal da série me fez assisti-la: a discussão sobre suicídio sempre me interessou e, por algumas situações, pensei que se apresentaria em algum momento em minha vida. Explico: conheço pessoas que sofrem de ansiedade, gente que não fora diagnosticada com depressão ou problemas emocionais, mas que comentam que pretendem se matar, situações pesadas enfrentadas por pessoas que lutam diariamente para poder viver com o mínimo de felicidade e algumas que realmente suportam toneladas de acontecimentos incômodos, mas conseguem se dar uma outra chance…diariamente. Então assisti pela convivência com tais padrões, porque fiquei curioso para ver como abordariam tal discussão em uma série (adaptação do livro homônimo lançado em 2007 – que não li) e também porque uma amiga deu a dica. Amiga essa que participará da resenha, acrescentando algo que eu possa deixar passar.

2 – Antes de ouvir a fita do Clay já me sentia tipo 75% ele, então fica muito particular essa minha escrita. Quase a totalidade da minha análise e comentários são tentativas de interpretar a ótica do garoto que sofre pela morte da amada. Gostaria de deixar isso bem claro, pois muito pode ser deixado de lado e a percepção do que aconteceu durante a série fica mais atrelada ao que vai acontecendo com o protagonista. A série é sobre a Hannah e seu sofrimento até o desfecho fatal, com muitas variáveis discutidas em postagens e comentários em redes sociais. Admito que não seria entendedor do que aconteceu com ela, mas essa resenha é minha concepção sobre o que o outro protagonista pode compreender.

3 – Costumo dizer que toda história tem dois lados, ou até mais. Entendo que tudo que acontece em nossa vida pode ser percebido de maneiras diferentes por outras pessoas, então gosto de tentar entender o que o outro tem a dizer. No caso de reações adversas a que a série recebeu, digo que cada pessoa tem lá suas questões e entendimentos. Mas, mesmo parecendo gastar muito tempo em alguns momentos ou trabalhando alguns pontos de maneira não aprofundada, o enredo e narrativa me agradaram. Me impactou de uma maneira a reforçar na minha crença que precisamos sempre fazer mais quando defendemos e acreditamos em algo. No caso daqueles que não sentiram nem empatia pela tristeza da protagonista ou até dizem que a vida é ruim para todos…bom…eles tem seu lado da história.

4 – Para quem ficou vivo, sejam eles amigos ou pais, é visível o quanto é traumático o suicídio de uma pessoa próxima. A dor excruciante da mãe está presente em todos os momentos em que ela aparece e o pai vai sofrendo ao seu tempo e maneira. O garoto que gostava dela, Clay, também sofre ao seu modo, ganhando intensidade a cada fita ouvida e com desespero para descobrir o porque dele estar incluído na lista de “culpados”. Os outros responsáveis parecem que vão “acordando” para a tragédia que aconteceu, identificando e descobrindo o quanto podem ter destruído a vida de outra pessoa, mas tudo isso só depois de confrontarem de frente a responsabilidade que insistiam em não ter.

5 – Sobra a culpa de Clay: é fácil, para quem já passou por algo parecido, entender e sofrer com ele. A garota de quem ele gostava tinha sua própria vida e ele conhecia pouco sobre. Quando vamos apreendendo que muitas particularidades e acontecimentos na vida de uma pessoa que gostamos são desconhecidos, nos sentimos distantes e até responsáveis (tudo péssimo) por não termos nos esforçado mais. Muitas vezes estamos presos pelo sentimento que não temos coragem de expor e acabamos não enxergando o que pode estar à nossa frente, e a pessoa, mesmo gostando da gente (mas também não sendo corajosa), se envolve com outro, que foi lá conversar e tentar conquista-la.

6 – O tempo trabalhado na série foi de uma excelência linda. Podemos perceber, além do machucado na testa do protagonista, a mudança de cores, em tons mais quentes e frios, identificando o passado e o presente – fiquei pensativo se os tons mais quentes poderiam indicar algo na vida dos jovens que viviam como se tudo estava bem, enquanto ela estava viva e depois começou a ficar frio e tenso, quando ela se matou.

7 – Há outras histórias. Cada um tem a sua verdade e até entenderem o que realmente fizeram, tais verdades eram imutáveis. Temos aqui a visão individual de sofrimento e como cada um reage ao que lhe acontece de ruim (Hannah cometeu suicídio, mas todos também passam por problemas, outra garota também foi estuprada e mais tragédias acontecem). Acompanhamos a vida escolar de todos, as relações de amizade e os dilemas pessoais que diversas vezes são desconhecidos pelos pais. Cada um querendo se safar das consequências dos atos e diminuir a própria responsabilidade.

8 – Já sabem que me identifiquei com o Clay, me solidarizei com o melhor jogador do time (Zach), que se sentia menor do que sua realidade física mostrava e pela baixa auto-estima que tinha e tive também pena do capitão do time (Justin), que já tinha uma vida bastante ferrada. Sobre os demais envolvidos: o ex-amigo (Alex) tinha seus problemas e o stalker (Tyler) sofria bullying, mas me simpatizei pouco com eles e também com a líder de torcida (Sheri) que se remoeu com a culpa por um erro covarde. Quanto aos populares conselheiros de turma (Courtney e Marcus), só os vi como mesquinhos e arrogantes, assim como o intelectual editor (Ryan) que era esnobe e bem idiota. O único adulto nas fitas e conselheiro da escola (que foi cego e se envolveu pouco como conselheiro, só senti que sua vida atribulada de responsabilidades o fez pecar quando mais precisava atuar no que se propunha a fazer e isso foi uma falha grave. Chegamos a ex-melhor amiga (Jéssica) e para essa tenho sentimentos paradoxais: sinto muito pelo sofrimento dela ao descobrir que foi estuprada, enganada pelo namorado e permaneceu com a dúvida que depois a consumiu, mas me chateia ver que a amizade foi jogada fora por acreditar na conversa dos outros e querer se encaixar entre os populares enquanto a amiga sofria.

9 – Muita coisa ruim que pode influenciar na vida de uma pessoa acontece na série. É até meio lógico que aqui pareça um tanto quanto menos trágica em alguns aspectos (mesmo que com uma sinceridade factual sobre o cotidiano de jovens, 13RW é uma obra ficcional), mas questões sobre bullying, solidão, estupro, segredos, difamação, julgamento, mentira, descaso, culpa, desespero, depressão, amizade e confiança vão sendo trabalhadas a cada episódio e com grandes consequências evidenciadas que seguem bem a realidade. A protagonista passa por essas tragédias a cada fala e exposição que relata nas fitas e podemos (ou não, depende de como você interage com isso) perceber como tudo vai criando um cenário causal para sua ação final. Teve gente que reclamou dela se matar por pouco (o que é pesado), mas para quem já sofre de qualquer distúrbio psíquico ou emocional, o que já aconteceu com Hannah na primeira fita pode ter um significado desastroso.

10 – Hannah discursava em todos os episódios frases que indicavam o que aconteceria. Na maioria das vezes, já nos minutos iniciais podíamos entender sobre quem ou o motivo de sua tristeza. Em suas falas, ela ia comentando aquilo que a afetava e destruía aos poucos, aquilo que a fazia perder a confiança e a deixava chateada com a pessoa que se referia. Isso foi algo que gostei muito durante a série e me fez refletir bastante sobre como os outros nos afetam e como os outros são afetados por coisas que, talvez, não mexeriam tanto com a gente. Muitas das frases me fizeram sentir grande empatia pela protagonista.

11 – Por questões práticas é preciso falar sobre a série como agente formador, ou transformador, ou causador (de problemas ou soluções). Assisti depois de ter lido uma crítica desaconselhando a assisti-la (como já disse, me interesso pelo assunto e uma amiga comentou que estava assistindo). Sei que pode parecer desproporcional você assistir algo já conhecendo fatos relevantes sobre, mas tentei ao máximo me colocar “de fora”, sem conceitos ou pré-conceitos. Fato notório que muita gente gostou, outras odiaram e várias reclamaram de como ela pode influenciar pessoas que sofrem de qualquer tipo de depressão ou que tenha disposições suicidas. Acredito MUITO nos gatilhos que alertam existir no seriado e concordo que não é para todos, mas digo que vale a pena para início de conversa e também para quem interessa conhecer um pouco mais…mesmo que seja de uma maneira “romanceada”.

Segue o link de uma entrevista bem informativa sobre o assunto: Alertas sobre 13RW

12 – Como citado no início da resenha, assisti a série também por indicação e a participação dessa minha amiga, e gostaria de incluir aqui os últimos parágrafos, escritos por ela:

Ao ser convidada para opinar sobre a série, tentei refletir o mais profundo que poderia, buscando um ponto que ainda não tinha sido explorado, algo que deixaram passar…e o mais longe que consegui chegar, me fez voltar no que há de mais simples e de certa forma entendi que era essa ‘a mensagem’. A simplicidade da vida, das ações humanas e suas consequências. A simplicidade do amor e o respeito ao próximo. A série dá um show em representar temas fortes que partiram de ações pequenas, mostrando como ‘um erro bobo’ no trânsito pode tirar a vida de um jovem, como uma brincadeira sem graça, por querer mostrar ser quem não é ou ganhar ‘moral’ com ‘os grandes’, pode determinar o futuro de uma moça, como uma palavra não dita pode deixar um vazio enorme em alguém.

13 – Não quero pensar só na Hannah, mas focando um pouco no fato final (ou inicial da série), pra quem não vive uma situação parecida, nada é motivo pra suicídio, na minha crença nem quem passa por coisas do tipo tem motivo pra suicidar, porque tirar a própria vida não deve ser a única opção para ‘resolver’ uma situação pra alguém, mas infelizmente é a realidade de muitos que chegam a essa certeza. Cada pessoa sente de um jeito, alguma coisa banal pra mim pode ser devastadora pra alguém e não cabe a mim falar que essa pessoa não tem motivos pra chorar, pra sofrer ou até mesmo pra desistir. Enfim, todos temos nossas dores e ninguém tem o direito de diminui-las. Quero então, da maneira mais simples, falar ‘ao mundo’ que devemos amar, que devemos nos importar, que no mínimo devemos respeitar, se não soubermos como ajudar, que pelo menos nos concentremos em não atrapalhar. Não estamos sós, não somos independentes no mundo, somos de uma família ou de uma sociedade. Em qualquer âmbito somos ligados a alguém direta ou indiretamente e nossas escolhas, ações e decisões vão afetar aos outros, então, que sejam para o bem.

 

Postado em: Netflix, Semana de Cinema
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