Netflix com o Poderoso – The Crown
por Patricia
em 17/12/16

Nota:

 

A estréia de The Crown marcou o maior investimento da Netflix em uma série até agora. Foram mais de 130 milhões de dólares para recriar a época do coroamento de Elizabeth II como Rainha da Inglaterra. E enquanto nos apresenta uma Inglaterra pós-guerra lutando para se manter relevante no palco mundial e aos antros de uma família real lançada ao olho público por uma traição, a série também nos mostra como o mundo mudava drasticamente tanto do viés político quanto do advento de novas tecnologias.

Elizabeth não deveria ser Rainha. Seu pai, o segundo filho do então Rei George V, não deveria ser Rei. Mas tudo isso mudou quando seu tio decidiu que casar-se com uma divorciada era mais importante do que ser Rei (e a série refuta o mito de que ele fez isso de coração leve) transportando a linha de sucessão para seu irmão mais novo e, consequentemente, seus filhos ou, nesse caso, filhas.

Por anos, Elizabeth foi treinada para ser Rainha – estudando nas melhores escolas onde aprendia nada mais do que….ser Rainha. Ao ser coroada e perceber que teria que se encontrar com políticos do mundo todo, ela percebe que há um lapso fundamental em sua educação. Ela contrata, portanto, um professor que lhe possa ensinar filosofia, História e etc. É um momento humano de uma mulher que muitos acreditam ser agraciada diretamente por Deus.

A serie não pára por aí na busca por nos mostrar a família real da vida real. Ela nos apresenta a um casamento incomum: um homem poderoso (Philip era um príncipe grego antes de casar) e uma mulher mais poderosa ainda. E nos mostra que, já em 1950, a Rainha enfrentou o que muitas mulheres hoje podem verificar: um homem que não consegue lidar em não ser o centro das atenções ou o sucesso da esposa. Príncipe Philip, por vezes, parece ressentido por ter que andar atrás da esposa (ordens da Coroa) ou ter que se ajoelhar perante ela durante a Coroação. Aliás, ele pede que ela abra uma exceção para que ele não tenha que se ajoelhar….e ouve um determinado “não”. Além disso, esperavam que a Rainha assumisse o sobrenome do marido – como qualquer mulher casada – e quando isso não acontece, Philip se mostra mais ressentido ainda. Seus filhos, ele descobre, também carregarão o nome da Rainha.

A Rainha não tinha nenhum exemplo no qual se basear e, aos 25 anos, descobre que deveres para o casamento e deveres para a Coroa poderiam, por vezes, se misturar de uma maneira muito confusa.

Além disso, ela tinha que lidar, também, com o difícil Winston Churchill (interpretado com maestria por John Lithgow) que a tratava com certa condescendência até ela tomar coragem para lhe falar umas poucas e boas – literalmente, passando uma descompostura no homem mais poderoso do país.

Apesar dos contornos naturalmente feministas que a série pode ter – afinal estamos falando de uma mulher ocupando um trono – ela também nos mostra o quão retrógrado é, de fato, a idéia da monarquia. Com títulos sem significado algum até os dias recheados de nada (para a maioria), a monarquia parece mesmo um conjunto de pessoas que simplesmente estão ali. Com a perda do poder total do monarca, o título que une Estado e Religião parece cada vez mais impertinente em um mundo que discute, cada vez mais, Estados laicos e democracia. E isso fica extremamente claro no mundo pós guerra em que a Inglaterra começa a perder espaço no cenário global para os Estados Unidos.

Muitos acreditam que The Crown veio para se posicionar como a sucessora de Downton Abbey –  drama britânico sobre a monarquia cuja última temporada foi ao ar nesse ano. E tal qual Downton Abbey, The Crown tem um ritmo lento – em alguns episódios nada acontece – mas é belíssima e nos apresenta exatamente o ritmo que a monarquia caminha. A construção da Rainha Elizabeth é lenta e excelente de se acompanhar. De mulher apaixonada, para mulher educada, para mulher assustada até Rainha de verdade, o caminho é longo e árduo.  Para o espectador, ter esse vislumbre por trás das cortinas da Coroa, é uma visão impactante.

Postado em: Netflix, Semana de Cinema

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