Netflix com o Poderoso – The Keepers
por Patricia
em 26/06/17

Nota:

 

Se você não viu a série ou não sabe nada sobre o caso, este texto pode conter spoilers. 

A Netflix tem produzido documentários de todos os tipos e sobre assuntos diversos. Ano passado, Making a murderer trouxe um debate importante sobre justiça e a polícia, e a segunda temporada deve sair esse ano. Recentemente, a Netflix manteve a tradição e lançou o documentário The Keepers abordando um caso sórdido do assassinato de uma freira em 1969 e suas alunas buscando justiça para sua morte 40 anos depois.

Cathy Cesnik era uma freira de 25 anos que decidiu que seria professora na escola católica Keogh localizada em Baltimore – uma cidade conservadora e ultra-católica. Um belo dia, Cathy desapareceu. Fora dois meses de buscas até seu corpo ser encontrado. As perguntas eram inúmeras. Ninguém parecia entender o que tinha acontecido. Cathy não tinha inimigos, nunca havia reportado nenhuma ameaça. De fato, na cidade, era extremamente raro o sequestro e assassinato de mulheres na época.

O documentário começa entrevistando duas senhoras – alunas de Cathy em Keogh – que decidiram que a justiça deveria ser feita. Elas criaram um grupo no Facebook visando buscar qualquer informação ou ajuda que pudessem conseguir. Isso vinha de uma suspeita de que o Padre Maskell – chapelão da escola na época – pudesse ter algo a ver com o sequestro e assassinato da
Irmã.

Ao final do primeiro episódio, essa ligação ainda não está clara. Passamos essa primeira hora na contextualização do caso e terminamos com mais perguntas do que respostas. No segundo episódio, tudo começa a tomar forma e – aviso – é uma episódio extremamente pesado, daqueles que fazem alguém se sentir mal. É aqui que entendemos o papel do Padre Maskell na história da Irmã Cathy: o Padre era um pedófilo violento que abusava das alunas da escola de maneiras impensáveis (não vou entrar em detalhes, mas reforço que o episódio é bem forte e ainda tem as entrevistas com as vítimas e alunas de Keogh que dividem suas histórias). Maskell era, além de Padre, um psicólogo e sabia manipular suas vítimas com precisão.

Em 1992, duas ex-alunas do Padre decidem processá-lo junto com a Igreja pelos abusos sofridos. Ambas se mantiveram anônimas no processo – Jane Doe e Jane Doe – porque temiam retaliações. O mais interessante desse caso é que foi a primeira vez – ou uma das primeiras – em que memórias suprimidas foram colocadas em questão como possível base para um julgamento. Jane Doe – uma das alunas que parece ter sido uma das mais abusadas pelo Padre (e as descrições dela são desesperadoras de acompanhar) – se recordou 20 anos depois de todo o abuso que seu cérebro parecia ter reprimido esse tempo todo. Ou seja, como mecanismo de defesa, o cérebro reprimiria traumas e a pessoa seguiria a vida possivelmente sem nunca saber (ou lembrar) que algo terrível lhe aconteceu. A justiça na década de 90, porém, não aceitou essa premissa como algo viável para quebrar o prazo de prescrição do caso.

Se em Making a Murderer vimos como a polícia pode ser nociva para certos casos, em The Keepers é a Igreja quem ativamente acoberta os casos e manipula as vítimas (algo que seria explorado com mais detalhes nas reportagens de Spotlight em Boston anos depois e cuja história rendeu um filme premiado sobre o qual já falamos aqui).

O documentário toma uma nova forma depois desse segundo episódio: mais pesado, mais forte, mais interessante. E também mais lento – algumas cenas se repetem várias vezes como a dramatização de Jane Doe entrando em uma sala. Isso é um recurso compreensível para prolongar um pouco o suspense, mas usado muitas vezes também diminui o ritmo a ponto de ser quase cansativo. E em momentos de grande tensão, é quase insuportável rever a mesma cena de novo e de novo sem sentir certa falta de ar – a cena mantém o telespectador naquela história em particular até o próximo quadro.

O diretor Ryan White – cuja tia foi aluna da Irmã Cesnik – guia o telespectador pelos 7 episódios com calma, construindo a narrativa de cada vítima bem como das mulheres que buscam justiça para a Freira.

Outro ponto importante é a extensão da pesquisa, com o time conseguindo entrevistar diversas pessoas chave para o caso – ainda que muitas já tenham morrido e, claro, seu impacto quase imediato: depois do documentário ser lançado, a Arquidiocese de Balimore publicou um FAQ em sua página comentando alguns pontos levantados e o Estado de Maryland estendeu o prazo do prescrição para abuso sexual de 25 para 38 anos – o que significa que as vítimas devem se manifestar até os 38 anos contra seus abusadores. No último episódio, vemos um representante fazendo a petição que já lhe era negada há anos. A maior opositora para a extensão do prazo era a Igreja Católica.

Postado em: Netflix, Semana de Cinema
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