Dica de filme – Indústria americana
por Bruno Lisboa
em 18/03/20

Nota:

Desde a revolução industrial no século 18, o universo do trabalho tem passado por inúmeras transformações que impactaram, diretamente, as relações humanas. Se inicialmente o mesmo era baseado em ideologias análogas a escravidão, o proletariado conseguiu, no decorrer das décadas subsequentes, mudar diversos paradigmas que acabaram por favorecer a classe trabalhadora que conquistou direitos relacionados ao bem estar social. Mas, visivelmente, a qualidade de vida de outrora está sendo retirada aos poucos do foco em prol da lucratividade das grandes corporações. E este é o foco do documentário Indústria Americana.

Dirigido pela dupla de documentaristas Steven Bognar e Julia Reichert, o longa foi filmado entre 2015 a 2017 e cobriu o dia a dia dos empregados de uma empresa chinesa (Fuyao), especializada em vidros, instalada na cidade interiorana de Moraine (Ohio) nos EUA, num galpão que antes pertencia a GM, que foi a falência em 2008 após a crise econômica.

De maneira objetiva e pontual o filme buscar traçar, a partir de depoimentos, um paralelo das culturas trabalhistas de cada um dos países envolvidos. Num resumo básico, o modelo chinês é modelado em longas jornadas de trabalho, sob baixa remuneração e condições seguras para desempenhar suas funções. A mentalidade norte-americana, por sua vez, acredita que o trabalhador precisa ter condições plenas para realizar o que lhe compete e ter poder aquisitivo pleno para sustentar sua família.

Como se pode perceber, os modos de visão são diretamente opostos e conflitantes. E para tanto, para não serem lesados, os empregados da Fuyao tentam estabelecer uma força sindical na empresa (prática habitual por lá), tentando criar um diálogo aberto com os empregadores. Mas ao o fazerem eles foram refreados, sob ameaças de demissão, e todas as tentativas acabaram por ser em vão.

Mais do que um filme sobre o embate cultural trabalhista, Indústria Americana é uma clara alusão ao enfraquecimento da força trabalhadora ante ao capitalismo e ao lucro desenfreado das grandes corporações. Nesse sentido o trabalhador não passa de uma engrenagem que deve ser gasta a exaustão, sem a devida manutenção e trocada a medida de sua necessidade.

Por mais que as relações trabalhistas por aqui sejam diferentes, em vários aspectos, dos modelos apresentados, há muitos elementos em comum. Principalmente quando se pensa que a reforma trabalhista, recém implantada no Brasil, que traz em sua gênese diversos aspectos que impactam o mercado de trabalho e a sociedade de forma negativa.

Se a arte tem o potencial de ser instrumento da mudança a esperança é que surja mais filmes como Indústria Americana e que eles tragam reflexões sobre o que queremos daqui para frente.

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