Dica de filme – O poço
por Ragner
em 01/04/20

Nota:

Assumo que fiquei reticente de resenhar esse novo sucesso da Netflix. Reticente, pois julguei o filme deveras pesado. Fui atrás por causa do burburinho alardeado nas redes sociais e curioso que sou, assisti. Após o filme, tomado também por essa crise humanitária em que estamos passando (defender a vida ou a economia), digo que o filme mexeu comigo.

O poço é um filme espanhol que estreou na Netflix antes mesmo de todo o surto de Covid 19, contudo representa de maneira extremada o quão desigual e pouco empática é nossa sociedade, como já vimos por aí alguns milionários se preocupando mais com a economia do que com o povo (podemos dimensionar tal julgamento para a humanidade?). Como estamos discutindo o reflexo do isolamento e as consequências das paralisações da mão de obra daqueles que não tem a opção de permanecer em casa, fica o questionamento de como quem detêm o poder pode e deve se responsabilizar pelo próximo.

O filme é sobre uma organização penal e até mesmo educacional que encarcera duas pessoas por níveis. Alimentadas por uma plataforma que possui comida para todos. Porém, não há limite para o consumo e quem está nos níveis acima come o quanto deseja e a cada nível descido, essa comida diminui até não sobrar nada, não importando se ainda há pessoas famintas. O poço expõe um experimento real e ao mesmo tempo macabro, onde o pior do ser humano é escancarado. Quem está acima não se importa com quem está abaixo e quem está abaixo mata ou morre de fome.

Inicialmente temos dois personagens que representam bem condições de idealismo (utópico) e realidade (cruel). Goreng escolhe ter um livro com ele, enquanto Trimagasi possui uma faca (cada um pode ter algo dentro do Poço). Enquanto Goreng reflete como ajudar quem está embaixo e convencer quem está em cima, Trimagasi tenta esclarecer a obviedade de que o sistema funciona de um jeito e não pode ser mudado. Quanto mais baixo está, maior o sofrimento e o matar ou morrer pode ser a única opção.

Há muito entendimentos filosóficos e antropológicos capazes de desnudar a macro e micro imagem do filme. Para maiores especificações, indico a excelente análise do professor Leandro Karnal (no Instagram) compartilhada pelo Papo de Homem. Explicação de especialista!

“Existe uma síndrome de Eichmann e do mal banal. Quem pensa o modelo não sabe como ele funciona e quem sofre o planejamento não tem acesso aos que elaboram tudo. Todos cumprem ordens.”

Outros personagens aparecem e acompanham a jornada de Goreng para tentar compreender o mecanismo do poço e como desestabiliza-lo. Cada qual com sua particularidade e representação que acrescenta o entendimento idealista e real de todo percurso do protagonista.

O poço desnuda as consequências do desespero quando a fome destrói o conceito de humanidade e deixa óbvio como podemos ser os responsáveis pelo nosso maior mal. O desprezo pelo outro.

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