Netflix com o Poderoso – Nanette
por Patricia
em 04/07/18

Nota:

Quando tenho um dia complicado ou uma semana daquelas, normalmente, faço uma das seguintes coisas: assisto Rei Leão (o primeiro, obviamente) ou um especial stand-up na Netflix. Se decido pelo especial de comédia, busco por um(a) comediante que não me é familiar. Assim, já descobri a engraçadíssima Ali Wong, por exemplo, que já conta com dois especiais disponíveis. Descobri também a divertida Iliza Schlesinger com sua comédia mais “adequada” e bem feita em Confirmed Kill. Ao lado delas, grandes pesos-pesado da comédia como David Chapelle, Sarah Silverman e, um dos meus preferidos da vida, Ricky Gervais.

Só de zapear pela categoria de Comédia, o que temos é uma miríade de vozes, estilos, nacionalidades e gêneros. Aqui, não podemos negar que a Netflix deixou canais clássicos de especiais de comédia como a HBO no chinelo já há algum tempo. Mas a maior surpresa para mim, até o momento, veio direto da ilha de Tasmânia, na Austrália.

Hannah Gadsby tem 40 anos e é lésbica. Com seu estilo mais “masculinizado”, muitas vezes ela é confundida por um homem e usa isso como combustível para algumas de suas piadas. Até aqui, nada de novo. Ela é boa no que faz e as piadas são bem feitas. Dentro do esperado. Se eu queria rir, aqui estão as piadas.

Só que lá pela metade do especial, Gadsby diz que precisa largar a comédia. Ela explica que nos últimos 10 anos em que decidiu se dedicar a esta profissão, ela percebeu que usou piadas e risadas como muleta para lidar com os traumas da sua vida – humilhando-se em troca de risadas. De tanto repetir uma versão da história que deveria ser engraçada, mas não necessariamente verdadeira já que a comédia pode ser pautada na realidade mas não precisa corresponder a 100% dela, Gadsby explica que sua vida virou uma amálgama de ficção e realidade. A comédia precisa de tensão e de uma frase de impacto – normalmente engraçada. Mas a vida precisa de um ponto final. A vida precisa que as coisas sejam interiorizadas e que se lide com elas. Aqui, ela disseca o que é comédia e do que é feita.

O primeiro stand-up da comediante foi, em grande parte, sobre como foi difícil para ela sair do armário em uma cidade que considerou a homossexualidade ILEGAL até 1997. Ela brinca sobre como sua mãe recebeu a notícia….para depois explicar o que realmente aconteceu quando ela decidiu ser quem era de verdade.

Nenhuma piada poderia superar os traumas que ela narra. Em dado momento do especial, ela retorna a uma das primeiras piadas  e nos conta o que foi deixado de fora. Em outro momento, usando o conhecimento que adquiriu ao cursar História da Arte, ela destrói mitos como Picasso e Van Gogh frente ao que hoje sabemos de suas vidas e o que escolhemos ignorar em nome da reputação de cada um. O patriarcado, a homofobia, os privilégios, a misoginia….NADA está imune. E não é engraçado. Não é possível rir durante esses momentos porque Gadsby não está contando uma história com uma frase de impacto engraçadinha. Ela está esfregando na nossa cara séculos de opressão sancionada pela maioria e que, de fato, destruiu vidas. Gadsby está furiosa.

É justamente nesse momento que senti que via algo que ainda não tinha visto nas minhas andanças por especiais de comédia. Ricky Gervais em seu especial Humanidade fala muito sobre como os humanos são péssimos, mas nunca sem uma piada. Ele nunca perde um minuto explicando os traumas que o levaram a, por exemplo, não querer filhos (se é que esses traumas existem). O que Gadsby mostra é que, quando se vive às margens da sociedade, tudo nasce do trauma. A comédia e o ódio. E nós temos uma escolha.

Nanette é para rir e para chorar. É para se emocionar e pensar. Ela nos leva ao fundo do poço e nos deixa lá porque a comédia não tem que nos salvar; ela tem que abrir espaço, contar histórias, dar voz a quem não tem. Nanette é tudo o que a comédia deve ser e mais.

Postado em: Netflix
Tags:

Nenhum comentário em “Netflix com o Poderoso – Nanette”


 

Comentar