Netflix com o Poderoso – Bandidos na TV
por Patricia
em 18/09/19

Nota:

A televisão brasileira tem um histórico de sensacionalismo, mas talvez esse “estilo” seja mais proeminente no chamado jornalismo policial. Canais de TV dedicam programas inteiros a cobrir ações da polícia ou notícias sobre mortes. Quanto mais violência, melhor – parece ser o lema de muitos apresentadores que construíram carreiras milionárias em programas deste estilo e muitos acabaram, invariavelmente, enveredando para a política.

Todos esses programas parecem seguir o mesmo modelo: um apresentador de cara feia que se coloca ao lado da população “de bem”, condena a violência com palavras fortes (às vezes de baixo calão), cobra a polícia para fazer mais e acredita que ocupa um espaço que a justiça está deixando vazio. Se a justiça não condena, a televisão condenará.

O amazonense Wallace Souza poderia receber nota máxima em adaptação desse modelo. Além de seguir à risca a receita acima em seu programa “Canal Livre”, ainda tinha um programa de estilo “tosco”, com baixa produção e recebia o público no estúdio que se manifestava ao vivo quando ele “falava a verdade” à população.

Manaus enfrenta uma alta taxa de crime e foi eleita a 34a cidade mais violenta do mundo em 2018 subindo 12 posições em 2 anos. Localizada na rota da entrada de drogas para o Brasil, há uma crise constante entre as gangues que comandam as diferentes partes da cidade.

Para Souza, essa guerra rendia programas que batiam recorde atrás de recorde de audiência. Sua equipe era quase sempre a primeira a chegar nas cenas de um crime e mostrava tudo com exclusividade. Em uma matéria, um jornalista do “Canal Livre” chegou a um corpo carbonizado enquanto ainda saía fumaça do cadáver. Em outra cena, a equipe chega logo depois de um jovem ser baleado e o assiste agonizar por uma hora esperando o socorro que não chega. Ele morre ao vivo. Essas cenas eram apresentadas na televisão sem muita censura em um esforço de mostrar o mundo como ele é em todos os seus horrores.

Tudo isso fez com que o apresentador virasse o queridinho das camadas mais pobres da população e, de presente, ela lhe deu três mandatos como o deputado estadual mais votado do Amazonas. Sua pauta era lidar com a violência e a impunidade. Enquanto deputado, manteve seu programa no ar.

Porém, quando um chefão de drogas é preso e acusa Souza de contratá-lo para cometer crimes que a equipe possa filmar, as coisas começam a mudar de figura. De repente, as pessoas (e a polícia) começam a se questionar como é que a equipe dele consegue mesmo chegar tão rápido às cenas de crimes?

É isso que o documentário em sete partes de Daniel Bogado vai analisar (junto, claro, com a completa insanidade que é o sistema de justiça brasileiro). Entrevistando jornalistas, membros da equipe do “Canal”, o filho de Souza, membros do Governo, e outras pessoas envolvidas, é possível vislumbrar o mais puro suco de Brasil: milícias envolvidas em assassinatos e drogas, teorias da conspiração, briga de gangues, guerra de poder e mais.

As sete partes são bem feitas e as entrevistas conduzidas para que o telespectador decida no que acreditar. E o Brasil é tão bagunçado que o resultado é: você pode defender qualquer dos lados. Em um país diferente, talvez a concepção de que policiais milicianos pudessem existir, por exemplo, soaria ridícula. No Brasil, eles elegem até presidente. A proposta de que um apresentador de TV poderia se envolver com tráfico e usar seus contatos para assassinar concorrentes enquanto aumentava sua audiência soaria loucura. No Brasil, ele ainda é eleito deputado.

Vale conferir!

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