Netflix com o Poderoso – Olhos que condenam
por Poderoso
em 24/07/19

Nota:

Olhos que condenam conta a história de cinco garotos, 4 negros e 1 latino (entre 14 e 16 anos), que são condenados por estupro e tentativa de homicídio de uma mulher branca. Cinco garotos pegos por estarem, sem noção do ocorrido, no Central Park próximo a hora em que uma mulher foi abusada e quase morta, passam por um julgamento sem quaisquer provas (um exame de DNA não colocou nenhum dos 5 na cena do crime), extremamente injusto e completamente viciado. Um julgamento regado a racismo, preconceito, perda da inocência e abuso de poder.

Desde o 1º episódio, somos apresentados ao descaso, autoritarismo e incompetência policial, que alega ter encontrado os responsáveis pelo ato monstruoso ocorrido no Central park. Se a responsável pelas investigações estava decidida a trazer justiça para uma mulher violentada, acompanhamos horrorizados o desprezo pela vida de pessoas que sempre foram marginalizadas. Sabemos bem como o racismo e o desrespeito com negros e latinos sempre esteve bastante presente na história dos E.U.A. e continua até hoje.

Todos os episódios possuem uma carga dramática pesadíssima. A emoção toma conta em diversos momentos. Um misto de tristeza, revolta, desconforto, indignação e raiva nos acompanhou durante os 4 episódios. O fato de saber que tudo aquilo foi real, que não havia ficção ou qualquer situação inventada, nos deixou deveras incomodado e emocionado.

Refletimos, mais ainda, após assistir com o coração pesado, foi perceber o quanto tudo aquilo tinha a chancela de mulheres que desejavam justiça para outra mulher: Linda Fairstein era a chefe da unidade de crimes sexuais que queria, a todo custo, condenar o responsável pelo horror vivido por outra mulher (mesmo atropelando qualquer condição de inocência de garotos que já sofriam pelo racismo e xenofobia). E temos também Elizabeth Lederer que foi a promotora, que mesmo percebendo que não havia provas, prosseguiu com o julgamento e desprezou qualquer direito humano dos réus. Esse é um dos maiores privilégios dessas mulheres brancas: elas podiam ser feministas e não pensar em racismo enquanto falavam sobre justiça para a vítima. Muito se fala sobre o feminismo interseccional e a série mostra bem a importância do tema: uma luta não pode se sobrepujar a outra. Ambas as questões não podem virar bandeira única quando falamos de justiça.

Olhos que condenam revela, escancaradamente, o que de pior existe nas pessoas e no processo judicial norte-americano. O combate a um crime extremamente violento não deveria dilacerar qualquer fronteira da justiça. A série ainda se utiliza de imagens reais da época, com manifestações a favor dos jovens e contra o racismo. Toda a narrativa é real, visceral e emocionante. Também podemos ver como o atual Presidente os E.U.A, Donald Trump, na época apenas um playboy dono de hotéis, se esforçava para criminalizar imigrantes e a população negra – algo que se tornou um problema real quando se tornou presidente e estipulou as novas regras de imigração, separando famílias e colocando crianças em jaulas no que muitos congressistas estão chamando de “campo de concentração”. Questionado recentemente sobre o assunto, Trump se recusou a pedir desculpas pelos comentários durante o caso.

(in)JUSTIÇA!! Eis o mote dessa incrível série de 4 capítulos lançada pela Netflix. Há mais assuntos como racismo e preconceito, mas posso dizer que a falta de justiça guia a narrativa de Olhos que condenam. E por que tal afirmação? Porque o racismo nasce de injustiças e o julgamento dos cinco garotos é incessantemente norteado por condições sem qualquer parâmetro justo. Os garotos já são declarados culpados por uma sociedade extremamente segregadora e punitiva.

A história de Korey Wise, Raymond Santana, Kevin Richardson, Antron McCray e Yusef Salaam é contada retratando fielmente seus sentimentos e angustias (de acordo com os próprios). Wise era o único com 16 anos e seu julgamento foi solitário, assim como sua punição. E para piorar, ele era o único que não tinha o nome na famigerada lista criada para encontrar um culpado – Wise foi “convidado” a ir para a delegacia, para acompanhar o amigo Yusef e não saiu mais. Os rapazes sofreram horas de interrogatório sem a presença de um adulto ou advogado, sem poderem comer ou dormir, mas chegaram a voltar para casa antes do julgamento, Wise nem isso teve. Os amigos souberam de todo o horror que o amigo passou (desde antes do julgamento, até os anos confinado em presídios), anos depois, depois que o verdadeiro culpado confessou fazendo com que o processo contra os 5 fosse anulado. Culpado esse, que esteve preso no mesmo lugar que Wise.

Uma vez que saiu a notícia sobre a série, Linda Fairstein escreveu artigos defendendo sua decisão de processar os cinco réus e reafirmou que a justiça foi feita. Mas o estrago estava feito: de inspiração para a série Law & Order SVU e autora de sucesso de livros policiais, Fairstein foi removida de conselhos, perdeu seu contrato com a editora de seus livros e vem sendo execrada em locais públicos.

Vale reforçar as atuações aqui, além da direção poderosa de Ava DuVernay, conhecida pelo excelente documentários “A 13a emenda”, também da Netflix. DuVernay chamou garotos talentosos para interpretar a primeira fase do processo e depois atores mais velhos para retratar a passagem dos anos. Com uma exceção: Jharrel Jerome interpretou Korey Wise do começo ao fim mostrando não apenas a passagem dos anos, mas reforçando o impacto da violência dos adultos em um jovem que mal era alfabetizado. A atuação rendeu a Jerome uma merecida indicação de melhor ator ao Emmy.

Resenha feita em parceria: Ragner e Patrícia.

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