O Poderoso no Oscar – Parasita
por Bruno Lisboa
em 12/02/20

Nota:

Na noite do dia 09 de fevereiro a cerimônia do Oscar se rendeu a Parasita, filme do diretor e roteirista sul coreano Bong Joon Ho, concedendo ao longa os principais prêmios da noite (roteiro original, direção, melhor filme estrangeiro e melhor filme). Quem já o assistiu sabe que a comoção da academia pela produção é justificável, mas quem ainda não o fez deve estar se perguntando: é isso tudo mesmo?

Bom, para começo de conversa se faz necessário dizer que Bong, de forma gradativa, tem construído uma carreira sólida. Alternando produções hollywoodianas e filmes nacionais, o diretor tem construído uma filmografia que prima pela diversidade de gêneros; desenvolvendo uma direção precisa e com roteiros que conseguem não só entreter o espectador como também trazer em si certa carga de reflexão ante a sociedade.

O hospedeiro (filme com alto teor satírico sobre o universo da política), Snowpiercer (que aborda a luta de classes) e Okja (que fala sobre ativismo ambiental e a libertação animal) são alguns exemplos de como lhe é caro querer abordar dores do mundo contemporâneas.

Em Parasita, Ho volta para casa para nos contar uma história que mesmo sendo ambientada em seu país de origem consegue alcançar ares de cunho universal. No enrendo a família do jovem Ki-taek está desempregada, vivendo a duras penas através subempregos, num porão sujo e apertado. Mas uma obra do acaso faz com que ele comece a dar aulas de inglês a uma garota de família rica. Fascinados pelo requinte da vida dos ricos e poderosos, pai, mãe e filhos bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa.

No filme temos novamente como cerne a luta de classes, tal como em Snowpiercer, onde quem está na parte de baixo da pirâmide quer chegar a parte de cima a qualquer custo. Mas se no filme de 2013 Bong aborda o embate de forma gráfica e violenta, em Parasita temos uma leitura tragicômica sobre a busca desenfreada pela ascensão financeira. Porém, à medida em que o conflito se revela a comédia de costumes vai dando lugar um roteiro mais elaborado, que ganha camadas substanciais relacionadas ao universo do suspense, com um arco de tensão e reviravoltas que se sustentam até os minutos finais.

De forma precisa, Parasita é uma autêntica afronta ao capitalismo selvagem e a desigualdade social, numa clara exposição que mostra que as camadas mais ricas seguem parasitando as minorias. E a ascensão de quem está na parcela de baixo acaba por ser realizada, em sua maioria, por aqueles que subvertem a lógica das relações humanas em seu formato harmônico, gerando assim resultados catastróficos de uma sociedade desregrada e mesquinha.

A surpreendente comoção da academia ante à Parasita acende a discussão quanto ao futuro da humanidade. Esperasse que o sucesso de filmes como este seja capaz de causar comoção e reflexão numa sociedade doente, que segue sendo regida pelo dinheiro e sua conquista desenfreada à qualquer custo.

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