Revisitando – Dear White People
por Patricia
em 24/05/17

Nota:

 

O Bruno já comentou aqui no Poderoso sobre essa série que deu o que falar desde o seu trailer. Em sua resenha, ele abordou conceitos técnicos que não vou citar aqui, portanto recomendo ler a resenha dele para questões como essas. Nós concordamos, porém, que a série é boa e merece ser vista e acredito que meu texto é complementar ao dele. 😉 Meu texto pode conter spoilers.

Dear White People (DWP) é uma série que veio para quebrar paradigmas abordando o racismo escancaradamente. Já na inscrição para a faculdade – a série se passa na fictícia Winchester – membro do seleto grupo de faculdades da Ivy League que são faculdades privadas de primeira linha, ex: Harvard, Yale e afins – temos os primeiros sinais de segregação silenciosa: todos os alunos negros são, automaticamente, enviados para a mesma fraternidade: Armstrong/Parker (mesmo quando pedem para ir para outra casa).

Shonda Rhimes e os negros na televisão

Uma das melhores noites na Armstrong/Parker é quando passa o seriado Difamação (Defamation) e todos os alunos se reúnem na sala comum para assistir a série que é uma sátira fantástica de Scandal da poderosa produtora Sonha Rhimes. Rhimes tem criado barulho em Hollywood com suas séries centradas em mulheres fortes e independentes. Seu primeiro grande sucesso foi Grey´s Anatomy que está indo para o 12o ano. Logo depois, ela criou Scandal – série focada em Olivia Pope (em DWP é Olive), gestora de crises que trabalhou na campanha do Presidente Fitzgerald por quem se apaixona. Ela negra, ele branco. Em How to get away with murder, seu lançamento seguinte, a personagem principal é Annalise Keating – advogada criminal e professora que escolhe 5 alunos para se tornarem seus pupilos e aprenderem suas táticas. Ela é casada com um psicólogo. Ela negra, ele branco.

Rhimes cria seus personagens quase sem consideração por raça, desenvolvendo relacionamentos sem preconceitos. De fato, em suas séries, o empoderamento de mulheres fortes e complicadas parece ser tão ou mais importante do que o debate sobre raça (apesar de ele não ser inexistente). Ao criar Defamation, DWP estabelece uma diferença clara entre ambas as séries – se Rhimes está aqui para falar de mulheres no poder, DWP vai mais além e vai falar de como a raça impacta esse poder (e discutir o que ele é de verdade). Portanto, estes personagens de DWP não estão aqui para servir um dramalhão intenso (ainda que exista certo drama na série).

A experiência da faculdade

DWP recria as experiências mais básicas de uma vida acadêmica. Se o elenco fosse branco e a questão racial fosse secundária, teríamos quase um 90210 (os mais velhos entenderão a referência). Isso porque as necessidades, os questionamentos, as angústias, a vontade de pertencer e tudo aquilo que vem com crescer e se encontrar estão aqui. Os estudantes de Winchester passam pelos mesmos problemas pessoais que todos nós. Com um diferencial importante: a cor de sua pele dita muito como essas experiências os marcarão.

Um dos principais exemplos é o relacionamento de Sam e Gabe. Ela mestiça, ele branco. Ela, uma porta-voz das questões negras no campus, tenta evitar que o relacionamento se torne público. O receio é claro: o que seus amigos irão pensar ao descobrir que ela está namorando um branco (ou, o opressor)? Essa é uma das grandes sacadas da série: não fugir desse debate e manter a conversa durante toda a primeira temporada. A “politização” do relacionamento é feita de maneira branda e inteligente, levantando bem a questão de como a raça e experiências de vida afetam a maneira como vemos e nos relacionamos o outro.

Toda a experiência acadêmica – da inocência ao descobrimento – é abordada aqui. Vemos as personagens Coco e Sam, por exemplo, entrando na faculdade em cenas de flashback ainda inocentes para o mundo de certa forma. Com o passar dos anos, elas não apenas se tornam atuantes na luta negra no campus como mudam até mesmo seus estilos. Esse “acordar” para as questões raciais e a importância de se lutar por aquilo no que se acredita auxilia o telespectador a compreender o crescimento pessoal e a conscientização política pelo qual alguns personagens passam. Essa conscientização, para alguns, se deu de maneira abrupta ao descobrir que um jovem foi assassinado por policiais brancos que não seriam julgados nem exonerados do cargo, um mote bem real nos últimos 30 anos. Mote reforçado, aliás, no episódio em que Reggie tem uma arma apontada para ele apesar de dizer que é aluno e ter sua história corroborada por outros alunos presentes na cena.

A série tem a sensibilidade, ainda, de mostrar que a cor da pele também não significa consciência política – nem entre brancos, nem entre negros. Alunos de ambos os lados, muitas vezes, podem estar totalmente alheios às questões em discussão.

Apesar de tratar de temas espinhosos, a série consegue ter uma pegada leve em vários momentos permitindo que o telespectador se prepare para o que mais vem por aí. O tom de sátira é relativamente mais leve do que outras séries similares como Veep, por exemplo, que é uma sátira política em esteroides – e excelente, aliás.

DWP trouxe uma primeira temporada fantástica, apresentando os personagens em seu próprio tempo com a sátira sendo trabalhada com calma, reforçando os temas mais importantes quando necessário, criticando quando importante e nos fazendo rir quando apropriado. As expectativas para a segunda temporada são altas.

Postado em: Netflix, Revisitando, Semana de Cinema
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