Semana de Cinema – 678
por Patricia
em 25/10/13

Nota:

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678 é um premiado filme de 2010 que retrata os assédios diários que as mulheres egípcias sofrem. Somos apresentados a três mulheres que passam por situações diferentes de assédio, todas igualmente revoltantes e…infelizmente, muito comuns.

Vamos começar por Fayza: de familia pobre, ela tem um emprego precário em uma repartição pública. Quando tenta entrar no ônibus, todos os homens entram antes e ela fica para trás. Corre para pegar um táxi só para receber uma “atenção especial” do motorista. Na volta para casa, um homem do ônibus chega perto demais e apóia as mãos onde não deve. Com os atrasos constantes para chegar ao trabalho, seu tão necessário salário é reduzido deixando-a desesperada.

Em casa, ela corre para comer uma cebola quando o marido chega em uma tentativa infantil de evitar o sexo – coisa que o marido exige diariamente. Mas ela tem vergonha de dizer isso para ele (os egípcios não lidam muito bem com “nãos”) e acaba provocando uma briga.

Como explicar que ela tem medo de entrar em um ônibus cheio de homens? Que ela tem medo do que os homens fazem?

Ela também frequenta um grupo de auto defesa. No grupo, a coordenadora pede que todas respondam 3 perguntas:

– Você já sofreu assédio sexual antes?

– Quantas vezes?

– Qual foi sua reação?

Um set de perguntas simples e fáceis de responder. Só que todas as mulheres respondem “não ” para a 1a pergunta em uma atitude sintomática de uma sociedade que vê a denúncia de comportamentos desse tipo como algo vergonhoso.

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Então conhecemos Seba. Ao contrário de Fayza ela mora numa mansão, tem um emprego próprio (designer de jóias) tem tempo para correr e parece estar em um casamento de certo respeito mútuo. Seu marido é aficcionado por futebol e, durante uma festa de comemoração, ela é puxada por um grupo de homens e ele não consegue ajudá-la. O marido dela, então, diz que precisa de um tempo porque ELE não está confortável com o que aconteceu com ela. Óbvio que nesse momento devemos ter certa compaixão pelo marido. Afinal, não deve ter sido fácil para ele ver o que faziam com a esposa, não é verdade? Em nenhum momento, ele pergunta como ela se sente ou o que ela quer fazer sobre o acontecido. Ele está traumatizado, poxa!

Quando cogita ir na delegacia, ela ouve de sua mãe que a posição social de seu pai seria afetada. Seba é a coordenadora do curso de auto-defesa já que nem ela com todo seu status social conseguiu escapar da epidemia de abusos no Egito.

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E aí temos Nelly – uma comediante iniciante de stand up nas horas vagas e atendente de call center de dia. E hey, sabe o que é divertido? Quando você liga para um possível cliente e o cara pede seu endereço para te ‘conhecer melhor’. Toda vez. #asminapira. Mas Nelly não curte muito. Aliás, quando um cara a agarra no meio da rua e a arrasta por algumas quadras com seu carro só para poder pegar nos seus seios, ela cria uma bagunça e vai ela e o agressor para a polícia.

Soa como uma vitória? Espere até ver como funciona a justiça egípcia: o oficial no local explica que o agressor receberá uma multa já que um boletim de assédio tem uma pena maior. Veja que ele está cuidando do melhor interesse…do agressor. Quando Nelly diz que de maneira nenhuma ela vai sair de lá sem um boletim, o policial explica que para uma ocorrência desse tipo, um policial de patente superior tem que estar presente e, oops, nenhum está disponível. Nelly, sua mãe e seu noivo decidem, então, ir até a próxima delegacia mas eles devem levar o agressor por conta própria. No mesmo carro. Sem reclamar.

Nelly torna-se a primeira mulher no Egito a abrir um processo por agressão sexual. Ela é entrevistada pela mídia e o apresentador pede que ela responda a alguns telefonemas do pessoal de casa. Não preciso nem comentar o que sai né?! A família começa então a pressioná-la para abandonar o processo já que a reputação de todos seria arruinada.

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O filme é parado e um pouco cansativo. Mas o tema que levanta é real e vale a pena ser discutido porque o Egito é o mundo no sentido de que as situações retratadas aqui são comuns em todo lugar. Já falei aqui de um documentário  sobre assédio nas forças militares norte americanas que vale a pena ver também. E, claro, qualquer pesquisa de leve no google mostra que no Brasil as coisas não são muito diferentes e o debate parece que anda estacionado.

Se servir para ilustrar o que muitas mulheres sentem e aturam diariamente em suas jornadas, já valeu a mais de 1 hora e meia de filme. Se você tiver estômago sensível, assista-o em partes. Tem momentos em que você realmente quer arrancar uma cabeça.

As atuações são realmente sólidas e com a abordagem baseada em histórias reais não poderia deixar de faltar um investigador que sabe do que acontece nos ônibus diariamente mas não parece totalmente preocupado com as vítimas. Seu papel no filme é mostrar a profunda inércia das autoridades perante o que parece ser uma epidemia no país.

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2 Comentários em “Semana de Cinema – 678”


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Juliana Ghidini em 25.10.2013 às 06:22 Responder

O filme mostra com clareza que não importa a classe social, formato do corpo ou o tipo de roupa que é usada, o assédio pode acontecer com qualquer um a qualquer momento. O número de denúncias é quase que fictício, principalmente nos países árabes por conta da religião. Até mesmo a Faysa, que considerei uma espécie de Batman (resolvendo o crime com as próprias mãos), num momento de raiva, se deixa levar pelos preconceitos impostos pela sociedade repetindo que a culpa pelo assédio era, de alguma forma, da mulher.
As atuações realmente me surpreenderam porque, que eu me lembre, nunca assisti nada vindo do Egito.
O filme realmente é um pouco parado, mas altamente revoltante e triste. Pode ser pelo fato de abordar fatos reais, pode ser pelo fato de que qualquer mulher que respira já passou por alguma – senão todas – as situações abordadas durante o enredo.

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Paty em 25.10.2013 às 06:29 Responder

É isso aí…a mulher não tem proteção nenhuma – seja da condição social, do marido, do emprego, do dinheiro, que seja.
E obrigada pela dica. O filme realmente vale a pena ser visto. 🙂


 

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