Semana de Cinema – A Onda (Reupload)
por Thiago
em 28/01/15

Nota:

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O filme de 2008, do diretor Dennis Gansel é adaptado do livro de Todd Strasser, que, por sua vez, baseado no ensaio sobre o nazismo – “The Third Wave” – de Ron Jones, relatando a sua experiência como professor de História no liceu Cubberley, Palo Alto, California, em 1967. Ron Jones, na tentativa de explicar aos seus alunos como o povo alemão permitiu que Hitler e o Partido Nazista chegassem ao poder, criou numa semana, um movimento com o mote: “Força através da disciplina, força através da comunidade, força através da ação, força através do orgulho”.

Die Welle é um filme alemão e se passa na Alemanha atual, mas antes disso é um remake de um curta americano de 1981, dirigido por Alexandre Grasshoff, que retrata a experiência de Ron Jones. Lembro ter visto essa versão na aula de história do ensino fundamental, quando estava lá pela sexta ou oitava série. Sem dúvida nenhuma, mesmo essa versão cinematográfica mais simples deste conto de terror pedagógico, permaneceu no meu imaginário por muito tempo. Muitos anos depois, já crescido e graduado, conheci esta versão e ainda hoje ela permanece comigo para reflexão.

Baseado nos citados fatos, ‘Die Welle’ somos apresentados a Reiner Wegner (Jürgen Vogel), um jovem professor de um típico colégio alemão do início do século XXI. Na semana marcada para a realização de workshops em ciência política, caberá ao carismático e rebelde professor liderar o grupo de trabalho sobre “Autocracia”, termo para suavizar o impacto dos expectadores com palavras como fascismo, nacional-socialismo ou nazismo. Wenger, não representa o clichê do professor conservador, todo engomadinho e com ideias conservadoras e postura severa. Aparece na tela vestindo uma jaqueta de couro e dirigindo seu carro ao som de Rock’Roll Highschool, da banda Ramones.

Logo no começo do filme vemos a resistência do professor em assumir o comando da classe, estando muito mais interessado na turma de “Anarquismo”, inclusive por suas experiências no bairro de Kreuzberg, histórico reduto da militância de esquerda em Berlim. Contudo, rapidamente, o que seria uma simples aula sobre as origens do totalitarismo termina com uma turma de fato a atuar segundo os moldes de um sistema ditatorial.

É interessante assistirmos à transformação pela qual passam os alunos e mesmo o professor. De início os alunos ao serem questionados se seria possível a Alemanha voltar a um sistema totalitário, a resposta é um ‘não’ unânime e a explicação é que hoje todos estão muito mais informados. Um filme que me fez pensar que um dos maiores erros do nosso tempo é acreditar que os erros do passado não podem se repetir. Entretanto não quero aqui falar do filme simplesmente, afinal, é de um roteiro até simples, porém real e pesado.

Não é pesado apenas por ser real, mesmo se fosse ficção seria de grande impacto. Na época que este filme foi lançado tive a oportunidade de o apresentar a alunos de variados períodos do curso de pedagogia, em um debate sobre a profissão professor e as reações foram diversas. Muitos acharam engraçado, outros ficaram horrorizados, mas de um modo geral não acreditaram que era possível que algo assim fosse verdade (tal qual os alunos e até mesmo o professor, não acreditavam que aquela experiência podia extrapolar o círculo da dinâmica pedagógica e se tornar algo maior), mesmo se tratando de uma história real, alguns ainda acharam um absurdo a proposta do filme, acharam ofensivo. Entretanto vejo essa história através de uma reflexão sobre a importância e papel do professor.

Paulo Freire em seu livro Educação e Mudança (farei uma resenha sobre ele num futuro próximo), se encaixa perfeitamente para pensar acerca deste filme e experiência de Ron Jones. O primeiro capítulo intitula-se O compromisso do Profissional com a Sociedade. O segundo, A Educação e o Processo de Mudança Social. O terceiro, O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança e o quarto e último, Alfabetização de Adultos e Conscientização. Freire nos faz refletir sobre o comprometimento do profissional da educação com a sociedade, entretanto no Brasil de hoje, quem está disposto a realmente se comprometer? Através de uma metáfora relacionada a águas, Freire afirma que não há como comprometer-se verdadeiramente, sem mergulhar-se, sem ficar molhado (FREIRE, [1979] 2008, p. 19). Para Freire, até mesmo aquele que se diz neutro está, na realidade, com medo de se posicionar. Assim, oculta a verdade, ou seja, o comprometimento consigo próprio.

Compromisso aqui não é um ato passivo, inapto, mas ação e reflexão sobre a realidade , também, sinônimo de solidariedade, nunca unilateral ou reduzida à uma generosidade hipócrita. Como ser hoje o professor que Paulo Freire nos dizia? Não é a sem motivos que a inscrição em graduações para licenciatura diminuiu drasticamente. A reportagem de Patrícia Giudice no jornal Estado de Minas do dia 21/10/2013 nos diz que: “Em Minas Gerais, o número de matrículas em licenciatura teve o menor aumento (1,8%) em relação a bacharelado (5,9%) e tecnólogo (4%). A comparação foi feita entre 2011 e 2012. A estimativa do MEC é de que hoje faltam 170 mil professores de matemática, física e química nos ensinos fundamental e médio no país.

O ministério esclarece que as aulas estão sendo ministradas, mas por profissionais não licenciados, ou seja, um engenheiro designado para dar aulas de física ou química, um professor de física para preencher a necessidade de um de matemática.” Através da relação do filme com este livro de Freire e com a realidade do professor no Brasil de hoje, onde poucas semanas atrás, professores em uma manifestação pacífica na cidade do Rio de Janeiro, foram espancados pela polícia, podemos perceber que o colapso da educação no Brasil é o colapso social e o entrave para reais mudanças. O professor é um dos mais importantes agentes de mudança em uma sociedade, afinal a educação é um processo permanente de mudança na vida de uma pessoa. Porém devemos parar pra pensar, hoje, seja em escolas públicas ou privadas, até mesmo no ensino universitário ou técnico, qual é o papel da educação e qual a responsabilidade do profes

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