Semana de Cinema: A palestra de Monica Lewisnky no TED
por Patricia
em 23/03/15

Nota:

Hoje começa a Semana de Cinema aqui no Poderoso, mas vou aproveitar para falar de algo diferente. Uma palestra recente do TED que achei incrível e que trata de um assunto bem importante: o nosso papel na humilhação pública de algumas pessoas.

Não é segredo para ninguém que a internet mudou os limites de privacidade. Hoje, você pode acompanhar a vida de alguém em tempo integral através de um simples clique. Suas buscas na internet são gravadas para criar um perfil de consumo e tudo o que está online hoje, estará online para sempre.

Poderia ser apenas uma cena macabra de 1984, mas é a realidade em que vivemos.

Em 1998, eu tinha 11 anos. Era muito jovem para saber o que era internet de verdade (e a internet em si tinha acabado de aparecer como algo viável para se ter em casa), mas me recordo de ouvir sobre Monica Lewinsky. E depois, me lembro de ouvir sobre ela com muito desdém. Ela era, afinal, a estagiária que havia seduzido o Presidente dos Estados Unidos e colocado o país todo em um frenesi político.

Depois de certo tempo, nunca mais ouvi falar dela. Clinton terminou seu mandato e Bush chegou, provando que nada é tão ruim que não possa piorar.

Por isso, foi com muito interesse que assisti a palestra de Lewisnky no TED. Traçando um paralelo incrível sobre sua própria história com o que hoje conhecemos como cyberbulling, Lewisnky conta como chegou ao ponto de pensar em suicídio e como a mídia e o público a tacharam de “vagabunda, piranha”e outro adjetivos simpáticos. Hoje, isso é chamado de slutshaming. Na época de Lewisnky, porém, ainda não tinha nome.

Aproveitando o gancho de sua própria história – que foi um dos primeiros escândalos que a internet acompanhou em tempo real – ela fala sobre a triste situação que temos agora: com a facilidade de acesso a vidas alheias, a internet tornou-se um reduto sem fim de pessoas que se sentem no direito de saber, comentar, fazer piada e dividir questões íntimas sobre pessoas que mal conhecem.

Um bom exemplo disso são fotos e vídeos íntimos enviados pelo whatsapp e repassados como artifício de vingança. Isso, hoje, é conhecido como revengeporn. Alguém já se perguntou porque são sempre as meninas consideradas putas e nunca os parceiros que repassam coisas íntimas que são considerados babacas?

Há pessoas que acreditam que ver um vídeo e repassá-lo é inofensivo. Ainda mais por não conhecerem as pessoas envolvidas pessoalmente. Como se não precisássemos ter nenhum pudor e, lembra Lewinsky, nenhuma compaixão com desconhecidos. Se você acredita nisso, recomendo ler sobre duas jovens que se suicidiram depois de passar por algo similar.

Leiwnsky lembra que esquecemos o nosso poder de consumidor quando clicamos em histórias desse tipo. Nossos cliques são hoje nosso maior poder de barganha na internet. Cada vez que clicamos em um site para ler uma história dessa, estamos impulsionando esse conteúdo e deixando a impressão de que queremos mais disso. A mídia, ávida por cliques que se revertam em dinheiro de anúncios, nos entrega mais e mais histórias desse nível para nosso deleite pessoal e cliques sem consciência.

Mas, mais do que consciência, Lewinsky pede compaixão. Imagine estar na situação dessa pessoa que você não conhece. Imagine receber de desconhecidos comentários anônimos sobre sua vida pessoal. Imagine ser parte disso. Imagine que com seu clique na história ou quando repassar aquele vídeo, que alguém pode fazer o mesmo com sua namorada, amiga, irmã e, até mesmo com você.

Nunca antes precisamos tanto pensar nos outros antes de nós mesmos. E isso diz muito sobre nossa situação atual como sociedade. Com a ajuda da internet, acabamos desumanizando quem está do outro lado. Com sua própria história, Lewinsky nos mostra o lado negro da comunidade online e deixa muito claro, cabe a nós mudar isso.

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