Semana de Cinema – Ao Sul da Fronteira
por Patricia
em 22/09/14

Nota:

Unknown

Algumas regiões no mundo têm uma dinâmica tão específica e complicada que estudá-las nunca deixa de render novas descobertas. Uma das minhas matérias preferidas na faculdade era “GeoPolítica” justamente porque podíamos focar em uma região e analisá-la como um todo – como um bloco coeso de existência política. Nenhum me fascinava tanto quanto a América Latina. De México a Argentina podemos encontrar similaridades e diferenças, mas há uma identidade que parece ser única. E essa identidade parece ser ainda mais forte se olharmos apenas para a América do Sul.

Em “Ao Sul da Fronteira”, Oliver Stone decide desmistificar o que os americanos sabem sobre o que acontece na região e, mais especificamente, na Venezuela. Ele começa já mostrando o péssimo jornal do Fox News (o canal todo é um problema jornalístico, na verdade) afirmando que “O ditador Hugo Chávez assumiu que masca coca, uma droga que ele recebe do Ditador da Bolívia, todos os dias”. É tanta besteira numa única frase que Stone não aguentou e resolveu tomar a questão em suas próprias mãos e fazer o que ninguém da mídia americana parecia imaginar: olhar para a Venezuela sem o pré-conceito que destinamos  àqueles que discordam de nós ou são diferentes do que esperamos.

Depois de 5 minutos de uma sucessão de imagens absolutamente ridículas da mal informada e tendenciosa mídia norte-americana (sério, o pessoal podia ler um livrinho de vez em quando, hein?!), Stone retorna a 1989 para responder “Quem é Hugo Chavez? O que ele representa? E por que ele é tão odiado pelos amantes mais fervorosos do capitalismo?”

Com a queda do muro de Berlim, o Fundo Monetário Internacional passou a ser o centro das atenções do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Apesar de contar com 186 países, os americanos ainda ditavam as regras. Stone explica que os países da América Latina – na época enfrentando problemas sérios em suas respectivas economias – passaram a ser ratos de laboratório para os experimentos econômicos do FMI.

Um dos países que mais sofria na época era a Venezuela que foi pedir um empréstimo ao Fundo e recebeu um programa de restruturação econômica, o que é de praxe. Só que esse programa asfixiava grande parte dos gastos sociais penalizando muito mais quem precisava do Governo, ou seja, os pobres. (Aliás, sabe o que levou ao primeiro grande motim em Caracas? O aumento das passagens de ônibus. A História é algo incrível, não?!)

Com o exército nas ruas, venezuelanos entraram no que quase parecia uma guerra civil.

Chávez, que era um tenente coronel do exército na época, revoltou-se e publicamente condenou as ações militares. Tornou-se um pária entre os militares, mas angariou apoio suficiente para 3 anos depois tentar um golpe contra o Governo. O golpe falhou e Chávez foi preso, mas veio a público e assumiu a total responsabilidade pelos atos da milícia ou, do que ele chamava, “movimento militar bolivariano.”

Em 97, Chávez decidiu seguir o caminho democrático e concorrer à Presidência. Sua oponente era uma ex Miss Universo e a corrida parecia feita para a revolução no país. Os americanos noticiaram a vitória de Chávez como “uma mudança à esquerda na Venezuela”. A partir daqui, os americanos entraram na briga de maneira feroz. Auxiliando os rebeldes locais a se organizarem contra Chavéz e usando a mídia para denegrí-lo, eles pediam que o Presidente renunciasse ou sumisse do país. Não havia nem o mínimo esforço em disfarçar o interesse no petróleo do país. A Venezuela se dividiu em apoiadores e opositores do  Governo. O caos estava instalado. A mesma mídia que condenou o golpe que ele havia tentado anos antes, agora dava aos rebeldes a alcunha de “heróis da democracia”.

O que aconteceu quando Chávez saiu do poder? Os preços do petróleo venezuelano caíram drasticamente. SURPRESA!!!

As forças pró Chávez – parte do exército e grande parte da população pobre – lideraram o contra golpe e restituíram o ex Presidente ao poder. Os Estados Unidos fingiram que não tinham nada a ver com isso. A mídia estadunidense parecia envergonhada de mais um gol contra da administração Bush. O Governo Bush foi tipo o Brasil na Copa: mesmo sem motivo nenhum a gente até esperava algo de bom e torceu a favor. No fim, o desastre foi muito maior do que qualquer um imaginaria.

Mas Stone não ficou só na Venezuela: de Caracas, o diretor partiu para a Bolívia onde conversou com Evo Morales sobre a política de drogas norte americana e o impacto na indústria da planta de coca no país.

Da Bolívia, Stone foi à Argentina onde conversou com Cristina e Nestor Kishner (já comentamos sobre um bom documentário sobre a ditadura no país aqui).  Da Argentina, vamos ao Paraguai onde Fernando Lugo também dá sua versão sobre essa nova fase da América Latina. E do Paraguai, Stone vem ao Brasil para falar da mudança estrutural que o país passou com a eleição de Lula. De Brasil, o tour continuou para o Equador onde falou com Presidente Rafael Corrêa e dali, para a temida Cuba.

O tour é bem rápido já que o foco central dele é mesmo a Venezuela.

O Diretor encerra o documentário com um discurso próprio sobre a importância do capitalismo predador terminar e cita um capitalismo nobre que ainda pode ser possível.

Stone tem uma carreira sólida como diretor e alguns de seus filmes já mostraram boas críticas aos interesses capitalistas – Wall Street sendo um dos mais famosos, talvez. Apenas um ano antes de dirigir este documentário, ele já havia mostrado que discordava das diretrizes políticas republicanas quando fez “W” – filme centrado nos 2 mandatos de George W. Bush, mostrando-o, às vezes, como um grande imbecil à frente de uma nação perdida (em um ótimo trabalho de Josh Brolin interpretando um Presidente que às vezes parece ter sérios problemas mentais).

No Brasil, em ano eleitoral, temos ouvido diversos comentários mal informados não apenas sobre comunismo e socialismo, mas também sobre o que ficou conhecido por aqui como chavismo. O documentário nos apresenta uma visão que, claro, só vale para aqueles realmente interessados em abrir a mente. Os que vão olhar para tudo isso e continuar repetindo besteiras à lá “Danilo Gentili” é melhor nem procurarem o filme. Será uma perda de tempo generalizada.

Tem que estudar, minha gente!

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2 Comentários em “Semana de Cinema – Ao Sul da Fronteira”


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Gabriel+Cavalcante em 26.09.2014 às 11:12 Responder

“O Governo Bush foi tipo o Brasil na Copa: mesmo sem motivo nenhum a gente até esperava algo de bom e torceu a favor. ”

Sem mais, Paty. Hahahahahaha

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Paty em 29.09.2014 às 18:32 Responder

hahahha…beijos.


 

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