Semana de Cinema – As Sufragistas
por Patricia
em 22/06/16

Nota:

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No turbilhão político no qual o Brasil se encontra já há algum tempo, não deixa de surgir vozes de todas as vertentes. Alguns pedem por mais democracia, outros pedem por mais transparência e há ainda quem deseje remover o povo da equação (o que limitaria não apenas a democracia em si como também a transparência). É um debate muito maior do que os textões do Facebook nos permitem realizar.

Para todos os efeitos, há um ponto que sempre surge em época de eleição e de debate político: o voto. Quem perde sempre acusa os demais de “votar errado”. Não é possível esquecer a vergonha alheia daqueles que vieram à público humilhar nordestinos e beneficiários do Bolsa Família na reeleição de Dilma Roussef presumindo que essas pessoas votam errado porque não seguem o que um grupo deseja que aconteça. Como se a democracia tivesse que ser pautada por interesses de alguns mas não de outros. Muita aula de política é necessária ao povo no geral (e também uma boa dose de vergonha na cara para evitar comentários desse tipo), mas não é aqui que vamos entrar no mérito. O voto é um tema de muito debate porque muitos desejam nem votar, outros julgam o voto alheio. Nessa discussão, desaparece um sub-tema, por assim dizer, muito importante: a luta das minorias pelo voto não foi simples e não foi de um dia para outro. Se você é mulher e vota hoje, acredite que seu voto não veio sem dor.

O filme As sufragistas, lançado em 2015, abordou exatamente essa questão da luta feminina pelo direito ao voto misturando fatos reais com ficção de maneira fantástica. O filme levanta, ainda, o debate sobre direitos iguais para mulheres. Em tempos em que até atrizes de Hollywood reclamam de ganhar menos que os principais atores que trabalham no mesmo filme, é um tema mais atual do que nunca apesar da conversa ter começado há mais de 100 anos. Isso apenas demonstra que a luta das “minorias” não terminou.

O filme nos apresenta à jovem Maud Watts – jovem operária que trabalha desde os 13 anos e vive na miséria com o marido e o filho pequeno. O marido, aliás, trabalha menos horas e ganha mais que Maud simplesmente por ser homem. Mas Maud não questiona isso, ela aceita como fato concreto e a vida segue. No início do filme ela parece se afastar de outras operárias que começam  a falar sobre o direito ao voto para as mulheres.

Maud será tragada pela revolta quando, mesmo sem querer, os burburinhos de igualdade começam a entrar em sua cabeça. Como um véu que some de seus olhos, ela finalmente percebe que nada vai mudar a menos que as mulheres se unam e exijam que mudanças aconteçam. As mulheres que lutam pelo voto, ela percebe, são exatamente como ela: cidadãs de segunda classe, sem direitos (no divórcio, por exemplo, a mãe perdia automaticamente a guarda dos filhos para o pai) e sem perspectivas de melhora. Suas vozes eram caladas simplesmente por serem mulheres. E se você não tem voz, nunca será ouvido.

Depois de pedirem diversas vezes e sem resultados aparentes, as mulheres organizadas a favor do voto decidem pela desobediência civil e praticam pequenos atos visando chamar a atenção dos políticos locais. Esses atos vão desde explodir caixas dos correios (aquelas que ficavam nas ruas para depósito de cartas) até explodir a nova casa de um prefeito que a construiu com dinheiro de industriais (o prefeito se gaba disso em um jantar). Elas conseguem, também, chamar a atenção da polícia – sempre disposta a defender o Estado e manter o status quo intocado. O Estado responde à altura e essas mulheres serão presas, humilhadas, assediadas, espancadas e algumas perderão muito mais do que a liberdade.

As atuações são realmente boas. Apesar do filme trazer Meryl Streep no pôster, a aparição dela é menor do que se espera. Carrie Mulligan como Maud está ótima, uma promessa dessa geração de atrizes. Helena Bonham Carter não precisa nem falar, entrega uma atuação no ponto certo, como sempre.

O filme dá voz e nome a algumas mulheres que existiram mas caíram no esquecimento como acontece sempre que alguns consideram a batalha vencida. Em entrevista, a roteirista de “As sufragistas”, Abi Morgan comenta que, no início do projeto, não tinha percebido “como as vozes dessas mulheres eram contemporâneas e o quanto essas questões eram vivas e relevantes”.

Com um tema atual e um cuidado especial na condução da história, As Sufragistas consegue mostrar um período crucial na história dos Direitos Humanos enquanto entrega um filme bem feito.

 

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