Semana de Cinema – Django Livre
por Patricia
em 30/01/13

Nota:

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Pouco diretores tem o poder de me levar para a sala de cinema só porque têm um filme novo. Na maior parte do tempo, eu mal sei quem dirige qual filme e tendo a me guiar mais pela história ou por algum ator/atriz que eu admire. Tarantino, no entanto, precisa apenas lançar um novo filme e já começo a me coçar para correr ao cinema mais próximo. Com Django Livre não foi diferente.

Não é só por ele sempre ter personagens provenientes de minorias mas que em suas histórias se tornam os mais fortes (a vingança dos fracos) e nem pelo seu amor ao sangue falso de Hollywood. Assisto um filme do Tarantino sentindo que estou vendo algo que ninguém mais conseguiria tirar do papel. Sua idéias que, em teoria, parecem loucura, se transformam em obras cada vez mais no ponto certo para entreter com conteúdo.

Django Livre conta a história de Django (o D é mudo) – um escravo que se apaixonou e está pagando seu preço por isso. Além dele e sua esposa – Brunhilde – terem sido marcados para sempre como “fugitivos”, eles foram vendidos separadamente como punição. Em seu caminho aparece, então, o Dr. Schultz que era dentista e hoje trabalha como caçador de recompensa.

Ambos se juntam para caçar brancos do mal e encontrar Brunhilde que descobrem que trabalha como escrava na fazenda de Calvin Candie. Candie é um maluco por lutas de escravos e os coleciona como figurinhas em um álbum.

As atuações nesse filme são além do normal: Jamie Foxx como Django é sólido e ainda que seu personagem não tenha muitas mudanças, ele consegue evoluir o necessário. Leonardo di Caprio como Calvin Candie também entrega uma atuação excelente – como é de costume – ainda que continue a ser ignorado pela Academia. Ele consegue dosar muito bem os momentos de loucura e graça de Candie sem exageros. Mas o que falar de Christopher Waltz? Mais uma vez rouba a cena no filme….ainda que agora ele seja um dos “bonzinhos”, seu Dr. Schultz vai além de um personagem coadjuvante.

As cenas sanguinárias nesse filme não são tão constantes mas estão presentes para os fãs com o famoso tom cômico de Tarantino.

E a trilha sonora? Ah…a trilha sonora! Como sempre, uma obra prima à parte. É lindo ver alguém trabalhar tanto em algo que a trilha sonora seja moldada no detalhe para servir à história (aliás, muitas faixas incluem diálogos do filme). Cheia de sons de blues, rap e soul, as músicas nos ensinam sobre a contribuição da cultura negra para tudo o que conhecemos hoje.

Filme digno de assitir várias vezes.

 

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4 Comentários em “Semana de Cinema – Django Livre”


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Gabriel em 31.01.2013 às 10:06 Responder

O D é mudo, muito bem lembrado. Hahahahaha
Falou muito bem… eu acho que dá pra resumir também o motivo de ir ver o filme por “cara, um negro explode uma casa grande. Literalmente.”… só por isso, o filme já vale a pena, hahaha
Sobre o di Caprio, comentamos exatamente isso ao ver o filme, que ele fez direitinho a transição de rostinho bonito para ótimo ator…

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Paty em 31.01.2013 às 13:20 Responder

É isso msm o que mais gosto no Tarantino…seus protagonistas rebaixados estão sempre atrás de se vingar e retomar algum senso de poder. É aquilo..para mim se é do Tarantino já vale a pena. =)

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Daniel em 03.02.2013 às 23:39 Responder

Quando soube que Tarantino iria lançar Django Unchained, comecei a contar os meses. Cada boato e cada notícia legítima que apareciam eu acatava como se fossem peças de um quebra-cabeça que me prepararia cada vez mais para ver o filme. Tanta expectativa não foi em vão: o resultado proporcionado por essa grande obra foi além do que eu esperava. Vou tentar esmiuçar minha opinião sobre o que achei dessa nova pérola Tarantinesca, aproveitando o texto acima e os comentários apresentados.

Antes de tudo, lembremos de Inglourious Basterds (2009), antecessor de Django Unchained, onde Tarantino explorara mais uma vez todo o seu já conhecido potencial criativo em uma trama de vingança através de um contexto histórico que (talvez) a maioria das pessoas quisesse que realmente tivesse acontecido. Fazendo referência à última fala de Basterds, eu também achei que Tarantino “criou uma obra-prima”; e, não obstante, imaginei como poderia ser o próximo trabalho deste genialíssimo diretor de Tennessee. Assim, minha alegria quando Django foi anunciado foram a mil.

E que filme! Mais uma vez uma história de vingança (Tarantino até alegou que seus dois últimos trabalhos faziam parte de uma possível trilogia, popularmente apelidada de “Trilogia da Vingança”, cuja terceira parte poderia estar por vir), agraciada por atuações extraordinárias, um roteiro sensacional e níveis de violência sem precedentes. Simplesmente, o filme é um western como os produzidos antes da “Nova Hollywood”, com todas as nuances cenográficas (como montanhas banhadas por nasceres e pores-do-sol); ângulos de câmeras semelhantes aos dos tradicionais faroestes; uma direção essencialmente crua para aplicar agilidade e pausa no andamento da trama, quando necessárias; uma trilha sonora excepcional e condizente com a temática abordada. Tarantino reciclou os modelos passados, porém, aplicando o seu modus operandi, sua pimenta básica de violência grotesca e gratuita.

É importante ressaltar que tanta expectativa oriunda após Inglourios Basterds não condiz com a necessidade do público de achar que o diretor deveria criar algo superior. Muitos fãs do Tarantino criticaram Django Unchained por apenas acharem que “não é tão bom quanto Basterds”. Acho eu um equívoco imenso comparar tais filmes. Primeiro, porque o de 2009 traz, de fato, uma trama mais inusitada e não mais intrigante. Retratar a ruína do nazismo talvez pareça ter mais valor agregado do que acompanhar a história de um escravo contra um senhor. Mas é aí que o buraco é mais embaixo. Neste trabalho, Tarantino não somente contou uma história heroica como também deu um tapa na cara do assunto “preconceito”.
Como assim? Eu respondo: preconceito é algo que não é visível. É uma espécie de pensamento humano que desmerece algo. Não se trata de uma história “digerível” como algo que aprendemos na escola sobre um líder que desencadeou uma guerra. É muito mais complicado pensar em algo que não se pode ver, que não se pode aprender somente por fatos históricos. Em Basterds, vimos Hitler ter seu fim. Em Django, vimos o preconceito racial pulverizado pelos objetivos do escravo herói alvo do próprio preconceito, que almejava libertar o amor de sua vida das garras de um rico fazendeiro. Em linhas sucintas, Django Unchained retratou o preconceito como ele realmente é: invisível, sem ter grandes nomes para serem citados; o preconceito puro e cruel entre raças distintas e idênticas (vide as brilhantes performances de Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson); o preconceito que existe mesmo que não saibamos sobre o mesmo. Todas essas concepções estão sob o cerne de uma história de heroísmo, amor e vingança, que parece simples demais – mas de valores éticos e morais incalculáveis.

E é essa a diferença a ser levada em consideração e o ponto onde é necessário perceber e entender o que o filme tenta nos mostrar. Não sei se meu (imenso) comentário agrega com sustância tudo o que essa obra tem para transmitir, mas espero ter ao menos liberado uma pequena fresta de luz direcionada ao seu âmago. E que a mesma fresta, acompanhada do texto e comentários acima, contribuam para que vocês que estão lendo repensem – e também escrevam – o que mais acharam de Django Unchained.

Auf wiedersehen!

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Paty em 04.02.2013 às 08:20 Responder

Na verdade, eu não vi muitas comparações entre Bastardos e Django. Acho que todos os fãs que conheço de Tarantino entenderam que cada filme tem sua própria genilialidae e a única coisa que os uni é que ambos só poderiam ser produzidos por Tarantino. Mas entendo o seu ponto do que as pessoas podem ter pensado. Ninguém quer reconhecer seus próprios preconceitos e vi que o filme causou rebuliço nos EUA pelo uso da palavra “nigger”.

Gostei do seu ponto. Eu sempre penso em Tarantino como o defensor das minorias mesmo, ele sempre (ou nos trabalhos mais recentes) coloca no centro do heroísmo das suas histórias uma pessoa que a sociedade, em termos, não aceita totalmente ou reprime de alguma forma. Eu não esperava nada menos de Django e acho que é exatamente isso que ele entregou. Uma vingança completa que se não te desperta um senso de “sociedade” ao menos entretém, e muito bem. =)

Ótimo comentário. Volte mais vezes. 😉


 

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