Semana de cinema – I am trying to break your heart: a film about Wilco
por Bruno Lisboa
em 27/09/16

Nota:

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Certa vez André Forastieri, jornalista do portal R7, afirmou no livro O dia em que o rock morreu que conhecer alguém que gosta de uma banda desconhecida (no caso o The Cramps, extinto duo de punk rock) era garantia de que a pessoa em si era gente boa. A justificativa é simples: ao invés de fãs, bandas “menores” tem é convertidos a causa. A mesma máxima pode ser aplicada ao Wilco.

Natural de Chicago, Illinois (EUA), a banda é dona de uma discografia ímpar, composta por 10 álbuns que transitam nos mais variados gêneros musicais (rock alternativo, pop, folk. indie, country…) e com letras sentimentais marcadas pela pessoalidade. Por mais que o grupo nunca tenha figurado entre os mais vendidos em paradas da Billboard ou tenha grande popularidade, a banda liderada por Jeff Tweedy tem um considerável número de séquitos mundo afora. Inclusive no Brasil. Se você ainda não conhece nada desta essencial banda o documentário I am trying to break your heart serve como ponto de partida.

Lançado em 2002, a primeira vez que vi o longa de Sam Jones fora no “Indie“, festival de cinema independente mineiro, no ano de 2004. Aproveitando a febre e a frenesi vividos por muitos (eu inclusivo), devido a vinda da banda para o Brasil em outubro deste ano optei por rever a obra.

Na minha vaga lembrança o longa era dotado de uma belíssima fotografia em preto & branco, basicamente cobria o processo de gravação de Yankee Hotel Foxtrot, expunha a logística interna da banda e colocava em prantos limpos a rixa de Tweedy com Jay Bennet, ex-guitarrista do grupo, que abandonou o barco após as gravações do álbum. Mas o filme vai além deste contexto, pois I am trying to break your heart  é não só uma carta de amor a música, mas tem, como contraponto, uma crítica mordaz a indústria da música de hoje, característica esta que não lembrava.

Para quem não acompanha a trajetória da banda vale aqui um parenteses: o Wilco nascera das cinzas do Uncle Tupelo, banda de country alternativo dos anos 90, que nunca alcançou a popularidade devida, mas deixou como legado 4 bons álbuns. Após o fim do quinteto, Tweedy uniu forças com parte de sua ex-banda e criou o seu ganha pão atual que, inicialmente, seguiria a sonoridade desenvolvida em sua ex-banda. Nesta época o Wilco lançou num curto período de tempo (4 anos) 3 álbuns que, apesar de terem conquistado a crítica, da mesma forma amargaram nas prateleiras.

Após os anos iniciais, a banda decidiu por dar uma nova guinada sonora, orientando o seu som peculiar (o alt, country) para uma seara mais experimental e que resultaria no hoje clássico Yankee Hotel Foxtrot (2001). Porém, por mais que resultado alcançado seja acima da média a gravadora (na época a Reprise, selo pertencente a Warner Brothers) rejeitou o trabalho, considerando que o mesmo seria um fracasso comercial.

Nesse sentido, o longa de Jones funciona brilhantemente, pois expõe, sem temeridade, a situação vivida pelo grupo. Interessante é pensar que a mesma serve de exemplo para muitos artistas que lutam pela autenticidade/integridade de sua obra e sofrem com embate da indústria que busca, a qualquer custo, moldar a arte visando o lucro.

Felizmente o grande vencedor neste embate entre Davi e Golias foi o primeiro já que o grupo não arredou o pé, conseguiu lançar no ano seguinte a obra, da maneira como haviam imaginado e ainda alcançaram a inimaginável vendagem de 600 mil cópias. Como se não bastasse tamanha reviravolta, o álbum chegara ao mercado via Nonesuch (outra sucursal da Warner), selo que estabeleceram contrato até 2009, até optarem por seguir de forma independente.

Hoje a carreira o grupo segue de vento em popa, criando (a sua maneira) uma bela história escrita disco após disco, estabelecendo uma relação de fidelidade invejável, não só a sua própria música como também aos fãs que seguem passo a passo cada uma das ações. Exemplo a ser seguido.

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