Semana de cinema – Interestelar
por Bruno Lisboa
em 24/03/15

Nota:

Oriundo do cenário cinematográfico do final dos anos 90, Christopher Nolan faz parte do seleto grupo de diretores que conseguiram transitar entre o erudito e o popular.

Descontando Following, seu primeiro e desconhecido longa, desde Amnésia, clássico lançado nos anos 2000, alcançou o que seria o seu grande trunfo: criar obras com roteiros largamente elogiados por sua complexidade, mas que alcançariam grande rentabilidade de financeira. Nesta seara, basicamente toda a sua filmografia passou por este crivo, principalmente os geniais O grande truque, A origem e a trilogia Batman que, sob a sua batuta, arrecadou mais de U$ 2 bilhões mundo afora.

Passo a passo, filme a filme, o diretor britânico fora conquistando a credibilidade necessária para que pudesse alavancar o que talvez seja o seu mais audacioso projeto: Interestelar.

Concebido gradualmente desde 2006, o projeto (antes idealizado para Steven Spilberg) é baseado nas teorias do físico Kip Thorne, cujo mote de estudo é a gravidade e a astrofísica. Porém, devido a conflitos de agenda, Christopher e Jonathan Nolan, roteirista e parceiro do diretor em todos os longas, foram contratados para a realização deste trabalho.

Alternando bons e maus momentos, o filme parte da manjada premissa do fim dos tempos e a extinção da raça humana por falta de alimentos devido a uma praga que assola o planeta. Neste entremeio temos Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta, que vive numa fazenda com seus filhos e o sogro (John Ligthgow). A rotina da família é modificada a partir da descoberta de um código binário, cujas coordenadas levam uma base secreta da NASA onde um projeto interplanetário é desenvolvido. O mesmo tem como foco a descoberta de outro planeta, que seria o novo lar da raça humana. Definidas as estratégias, Cooper aceita a árdua missão de acompanhar a equipe liderada pela doutora Amelia Brand (Anne Hathaway) em busca da terra prometida.

Se o plano inicial é conduzido por clichês melodramáticos, no segundo tomo é onde filme ganha fôlego. Já nos confins do universo, o roteiro dá voz a toda uma gama de leis da física quântica sobre buracos negros, noções de espaço e tempo, que fascinam os iniciados da matéria, temas que são embrenhados por discussões filosóficas, existenciais e por silêncios sepulcrais carregados de angustia.

Tecnicamente delirante (nas categorias efeitos visuais, som e mixagem) o diretor consegue de maneira incrível retratar de forma detalhada (sem usar das traquinagens do fundo chroma-key), os confins da galáxia. Como estudioso dedicado que é, em entrevista recente revelou que a inspiração para Interestelar nasceu das influências de 2001: uma odisséia no espaço, Metrópolis e Blade Runner, clássicos da ficção científica que dialogam abertamente com a sua proposta visual.

Exímio diretor de atores, Nolan retira de McConaughey (que cresceu como ator absurdamente em suas atuações recentes) e Hathaway toda a carga emocional necessária para a interpretação de personagens fragilizados pela distância de entes queridos. Jessica Chastain também brilha em atuação segura para Murph, filha mais nova de Cooper em sua versão adulta. O elenco estelar ainda conta as presenças de Michael Cane, Matt Damon, Casey Affleck e Ellen Burstyn.

Apesar da crítica mundial estar divida em lados opostos, Interestelar é narrativa épica e instigante. Por mais que, em alguns momentos, uma explicação mais clara de alguns fenômenos faça falta, todo o hermetismo impresso resulta num discurso de fé e esperança ante a humanidade e ao cientificismo de alta relevância, propenso à tempos como este, onde a escuridão ante ao futuro da terra impera. Esta ideologia é ilustrada pela citação do poema “do not go gentle into that night”, de Dylan Thomas, que durante o longa surge por diversas vezes:

“Não entre tão
docilmente nessa noite boa.
Que a velhice arda
e brade ao término do dia.
Luta, luta contra
o apagar da luz que finda.”

Interestelar , possivelmente, ganhará no futuro o merecido ar clássico. É dar tempo ao tempo.

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