Semana de Cinema – Juana Inés
por Patricia
em 23/10/17

Nota:

 

Atualmente, com a nova onda do feminismo, muitas figuras que foram apagadas pela Historia contada por homens tomam seu posto de direito. Em grande parte, o feminismo precisa trazer à luz mulheres que avançaram a causa nem que seja um passo, para mostrar que dissidentes sempre existiram e que cada uma pagou um preço caro por suas opiniões. Diversos nomes vêem à mente mas há um que, pessoalmente, só conheci quando assisti a esta adaptação: Juana Inés de Asberga.

Juana Inés é conhecida pelos estudiosos como a primeira feminista do Novo Mundo. Nascida no México, então chamado de Nova Espanha, de mãe concubina e pai basco, Juana era brilhante em seus conhecimentos além de escrever versos belíssimos. Foi com seus versos que conquistou a Vice-Rainha da Nova Espanha e tornou-se parte da Corte – sua última opção depois de ser expulsa da casa de seu tio.

Apaixonada pelo conhecimento e pelos livros, Juana logo se interessa por se tornar tutora da Princesa para que possa entrar na Biblioteca Real – proibida para mulheres. Ela conquista esse posto depois de debater com 40 estudiosos e mais alguns religiosos e responder a todas as perguntas satisfatoriamente. O vestibular mais intenso da história, talvez. Claro, essa prova foi necessária para que ela pudesse provar que uma mulher – que era vista como um homem inacabado – pudesse, de fato, saber coisas importantes sobre planetas, física e afins.

Ela logo incomoda muita gente, como qualquer mulher que teima em ser o que não querem que ela seja. Religiosos e membros da Corte perseguem Juana até que ela concebe entrar na Ordem de Freiras Carmelitas – ordem que existe até hoje pautada por castigos físicos como penitência (em 2016 uma das Carmelitas respondeu por um processo que a acusava de tortura na Argentina). Juana abandona a Ordem das Carmelitas e ingressa na Ordem de San Jerónimo y Núñez. Em uma época tão baseada no temor a Deus e controlada pela religião, Juana Inés, do alto de sua rebeldia, não tinha chances.

 

Quadro de Andrés de Islas

 

A importância dessa personagem na história Latino-Americana ressoa até hoje: ela já foi objeto de uma obra do vencedor do Nobel de Literatura, Octavio Paz; de um estudo da Universidade Americana Dartmouth promovido pelo Departamento de Português e Espanhol em 2004 em que Juana é descrita como “a maior poetisa produzida na América no Século XVII” e vários outros estudos baseados em suas obras.

A série, desenvolvida por Patricia Arriaga Jordán, (que também tem créditos como uma das diretoras) está disponível na Netflix já há algum tempo e foi originalmente produzida pelo Canal Once do México com um elenco predominantemente mexicano. Em sete episódios, o roteiro vai e volta no tempo para nos mostrar o ingresso – e impacto – de Juana na Corte até seus últimos dias no Convento. Por não termos muitos relatos da vida de Juana Inés, a série é baseada em fatos reais, mas, claro, com alguns pontos de ficção.

Enquanto muitos buscavam glória e poder, Juana Inés reforçava a todo momento que só queria tempo para estudar e escrever. Seu amor pelo conhecimento parecia estar acima de qualquer outro. Na série, a primeira Vice-Rainha, Leonor, parece se encantar rapidamente por Juana e a protege ao máximo de suas habilidades. Juana, a princípio, parece desconfortável com certas demonstrações de carinho da Vice-Rainha, mas notamos que sofre quando a Vice-Rainha se vai. Fica no ar qualquer conotação mais profunda sobre a relação das duas. É a segunda Vice-Rainha, Maria Luísa, que vai testar realmente os sentimento de Juana e nos apresentar a uma Irmã mais aberta a se aceitar. Porém, estudiosos se dividem ao analisar os escritos de Juana como baseados em um amor homossexual.

A série ainda aborda outras questões da época que dão contornos reais ao mundo de Juana: a fome do povo, a guerra de poder que se deva entre a Nova e a Antiga Espanha e entre o clero e a monarquia e a dicotomia entre a cultura espanhola e a local com índios sendo vistos como escravos e pagãos.

É a partir daqui que ela vai conhecer o real poder da Igreja enquanto tem que lutar contra preconceitos por ser mulher e manter-se fiel às suas próprias idéias. Uma ótima série sobre uma mulher muito à frente de seu tempo.

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