Semana de cinema – La La Land
por Bruno Lisboa
em 25/01/17

Nota:

 

De todos os estados da arte talvez seja o cinema uma das manifestações artísticas que mais conseguem promover a autocrítica. Volta e meia Hollywood produz longas que soam como “auto-sabotagem” já que criticam a si mesmo e o seu modo operante. De certa forma La La Land pode ser visto desta maneira. Por mais que a obra seja, como grande parte do público e crítica apontam, um musical moderno, romântico e com ótimas performances de seus protagonistas o longa tem como pano de fundo uma crítica mordaz a indústria da cultura.

Dirigido e roteirizado por Damien Chazelle, garoto prodígio responsável por Whiplash (filme já resenhado por aqui), La La Land como já foi dito, é um musical que tem como ponto central do enredo as trajetórias de Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone). O primeiro é um músico de jazz freelancer que almeja ter a sua própria casa de shows do gênero, já a garota é uma aspirante atriz que busca em Los Angeles, cidade onde o filme é ambientando, a iniciação de sua carreira. Por mais que vivam realidades distantes ambos tem como sonho comum o desejo de viver da arte de maneira honesta, sem se render a lógica imperativa contemporânea. Porém isso não será tarefa das mais fáceis.

Colocada de maneira fidedigna aos nossos tempos, a cidade de Los Angeles é pintada como a cidade dos sonhos na qual grande parte dos artistas buscam a realização pessoal, mas tem como contraponto a ótica de que a mesma fora corrompida pelo sistema que valoriza muito mais o produto descartável, o sucesso a qualquer preço do que a genuinidade e a integridade.

Para registrar bem os números musicais, Chazelle recorre ao uso de câmera em movimento e consegue captar em detalhes as apresentações como vemos logo de início no belíssimo plano sequência de abertura. A pegajosa trilha sonora autoral de Justin Hurwitz abrilhantam ainda mais as cenas.

Outro trunfo refente ao diretor é o uso das cores. Se em Whiplash há o predomínio de um amarelo opaco, tradicional de apresentações musicais, em La La land utilizam de uma paleta de cores, com predomínio do azul e do vermelho, que ajudam a imprimir o caráter onírico do filme.

Na área das atuações Gosling e Stone entregam performances convincentes, esbanjando carisma e domínio de seus personagens. Suas performances foram recentemente premiadas no Globo de Ouro e o filme foi premiado em outras cinco categorias, e figura, merecidamente, em outras 14 categorias no Oscar deste ano.

De certa forma La la Land é uma continuação espiritual do próprio Whiplash e de Birdman (filme de Alejandro González Iñárritu), pois tem como elemento comum personagens que buscam a manutenção da autenticidade artística num mundo cada vez mais mercantilizado onde tudo soa efêmero, sem consistência e pronto para consumo imediato.

Em determinada cena o casal protagonista vai ao cinema ver Juventude Transviada, clássico dos anos 50 com James Dean. Mais adiante vemos o mesmo fechado. Por mais que sejam breves estas passagens no enredo, e sem muito peso para a narrativa, as mesmas ilustram as dificuldades que o cinema autoral vive já que hoje predomina a lógica blockbuster. Há, claramente, detrimento ao cinema independente, pois as sala de cinema dão espaço a produções megalomaníacas e raramente à filmes independentes e de baixo orçamento.

Por mais que La La Land seja mais um filme “siga os seus sonhos”, o conjunto da obra agrada, é um autêntico respirar e um belo manifesto pop em prol da sétima arte e da perseverança.

Postado em: Semana de Cinema
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