Semana de Cinema – Melancolia
por Patricia
em 26/01/15

Nota:

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Melancolia saiu em 2011 e recebeu prêmios e boas críticas – apesar de alguns comentários de Von Trier sobre nazismo terem causado certo desconforto na época. O diretor está acostumado com polêmicas e seus filmes também não fogem de assuntos difíceis ou não muito populares – vide Ninfomaníaca e O Anticristo.

Em Melancolia ele aborda alguns temas mais ‘palatáveis’: o extermínio, depressão e egoísmo. Não são temas necessariamente inovadores, mas nas mãos de Von Trier se tornaram mais profundos.

O enredo do filme é simples: a Terra está em rota de colisão com o planeta Melancolia causando um furor de teorias de fim dos tempos que, dessa vez, podem realmente estar certas. As primeiras cenas do filme são belíssimas, como quadros que se movem em câmera lenta. Essas cenas mostram algumas imagens das protagonistas e da Terra em seus últimos momentos.

O filme é dividido em 2 partes – a primeira dedicada a Justine (Kirsten Dunst) e a segunda dedicada à sua irmã Claire (Charlotte Gainsborg).

A primeira parte abre com a festa de casamento de Justine. Temos momentos embaraçosos, como quando a mãe da noiva faz comentários anti-casamento no meio do discurso de seu ex-marido (pai da noiva). Até mesmo o noivo Michael (Alexander Skarsgard) faz um discurso não muito articulado.

Justine parece oscilar entre momentos de felicidade e muita tristeza. Sua festa de casamento vista por seus olhos é tediosa com bons momentos raros. De fato, ela parece tão alheia ao casamento em si que trai seu novo marido na mesma noite no que me pareceu quase um estupro de Justine a Tim – um jovem contratado pelo seu chefe para fazê-la criar um slogan de uma campanha publicitária no dia de seu casamento. A festa acaba, Michael vai embora, Justine perde o emprego e tudo é um fracasso.

Na segunda parte, Justine – em um momento de depressão intensa – vai passar um tempo com sua irmã Claire e seu cunhado John (Kiefer Sutherland). O foco da história muda para o casal e como eles reagirão ao fim dos tempos.

Justine parece entrar em um momento de clareza. Ela aceita seu próprio destino, bem como o da Terra, e sua própria melancolia parece dar lugar a apenas uma leve tristeza. Claire, por outro lado, está entrando em desespero. A idéia do fim da vida a deixa assustada possivelmente por ter mais a perder – sendo mãe e esposa. Li um comentário sobre como elas quase trocam de personalidade e seria uma boa maneira de explicar o que acontece.

Apesar do viés “ficção científica” do filme, Von Trier consegue evitar diversos clichês do gênero porque seu foco está nas relações familiares e não necessariamente no fim do mundo. A questão é que quanto mais o planeta Melancolia se aproxima, as personalidades vão sendo escancaradas e, com elas, os defeitos de cada um. Egoísmo parece ser a palavra-chave para a maioria. A vida na Terra está permeada de péssimos espécimes. Justine resume bem quando diz que “a Terra é má. Ninguém sentirá falta dela”. Nem dos humanos, temo.

Uma outra interpretação fácil seria de que o filme também pode ser uma – bela – metáfora para a depressão. A segunda parte foca em apenas 3 personagens isolados em uma mansão. Os três têm problemas consideráveis. As irmãs podem ter tendências depressivas genéticas – no casamento de Justine, em um momento de tristeza profunda, ela e sua mãe decidem tomar um banho de banheira quando estão “tristes” no que poderia ser um indicativo de que elas são muito mais parecidas do que o imaginado. Ambas parecem carregar o mundo nos ombros.

Kiefer Sutherland e Alexander Skarsgard no mesmo filme provam que nepotismo funciona em Hollywood. Pena que gene não transfere, necessariamente, talento. Sutherland é tão ruim sem uma arma na mão que deveria se ater a interpretar policias com poucas expressões faciais em enredos genéricos. Nenhum dos dois chega aos pés de seus respectivos pais. Felizmente, Melancolia foca nas duas personagens femininas.

Dunst está bem e Gainsborg está ótima. Trilha sonora sensacional para um final arrebatador.

Como todo Von Trier, acho que vale mais a pena não racionalizar muito e aproveitar a experiência, sentir os sentimentos, digamos, e atentar para o talento de diretor de colocar o espectador onde ele quer. Terminei o filme melancólica, mas quase pronta para começar a ver de novo.

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