Semana de Cinema – Memórias do saque
por Patricia
em 24/04/13

Nota:

memoria do saque grande

Meu pai esteve na Argentina em 2000 e voltou para casa falando de como Buenos Aires era bonita, das ruas, dos museus, do tango e tudo o mais. Em 2012, fomos todos passar uma semana na cidade para tirar a prova real do que ele comentou. Buenos Aires é realmente uma cidade bonita mas já não espelha mais o que meu pai viu. O que se vê agora são mendigos e lixo pela rua (centro de São Paulo style); muitos comércios fechados e outros que trabalhavam apenas meio período e preços absurdos para algumas coisas e irrisórios para outra. Buenos Aires havia mudado quase totalmente. Claro, o tango está lá (e é realmente lindo); os museus belíssimos; a incrível livraria O Ateneu também, mas o ritmo da cidade claramente não era o mesmo.

O documentário Memórias do saque ajuda a explicar um pouco sobre as mudanças políticas na Argentina que alteraram tão drasticamente o país em pouco mais de 10 anos.

Em 2001, famintos e desempregados, os Argentinos saíram às ruas para exigir que o Governo tomasse uma atitude enquanto cantavam “O povo não se vai” e enfrentavam uma polícia repressora. O documentário começa mostrando como a ditadura argentina começou um processo de endividamento externo do país de maneira quase irreversível – some a isso uma série de governos irresponsáveis e está dada a receita para anos e anos de retrocesso.

Presidente após Presidente desde o fim da ditadura, todos abaixaram a cabeça para as exigências de bancos privados internacionais. As pessoas começaram a perder suas poupanças e a inflação alcançou patamares absurdos. E aí Menem chegou ao poder. Menem foi governador de La Rioja (uma das províncias mais pobres do país) e foi eleito sob a promessa de cuidar dos pobres e garantir uma “revolução trabalhista”.  Foi questão de dias até Menem mudar totalmente seu discurso em um capítulo que o documentário chama de “A grande traição”: “As duas caras do novo chefe vão pulverizar meio século de resistência popular.” E, infelizmente, eles estavam certos.

Menem adota políticas estipuladas pelo Banco Mundial e o FMI e, um mês depois de eleito, aprova a Lei das Leis que comeã o processo de privatização de diversas empresas nacionais e apelidou a coisa toda de “revolução produtiva”. Em cima disso, a dolarização da economia (quando se equipara o valor do dólar com a moeda local) quebrou pequenos comerciantes e afundou ainda mais o povo pobre argentino. A onda de privatização passou pelo Brasil também, mas o petróleo sempre se manteve em mãos brasileiras. O mesmo não aconteceu na Argentina. Menem privatizou o petróleo argentino colocando em mãos estrangeiras um dos produtos mais estratégicos na política internacional (Cristina Kischner nacionalizou a empresa ano passado).

O documentário entrevista argentinos comuns e especialistas, enquanto desenha a imagem do que a Argentina se tornou na era pós-Menem. Claro, há um aspecto ideológico em toda a narrativa e todos os entrevistados seguem uma mesma linha de raciocínio. Não há espaço para os que aprovaram as atitudes do governo – o que pode ser perigoso quando se quer instigar um debate (se é isso que o documentário quer). Ainda assim, ele traz um viés da história que não foi contado antes.

E por mais que seja apenas um lado, achei bem longo. Talvez a narrativa pudesse se beneficiar de uma pouco mais de edição. Algumas partes parecem ser uma “forçada de barra” mas seguem a linha “denúncia” do documentário.

Em uma palestra que assisti uma vez de um economista de quem já não me recordo o nome, ele comentou sobre os 4 modelos de países: desenvolvidos, em desenvolvimento, Japão e Argentina. Os últimos dois geraram risadas na sala e ele explicou: Japão porque é difícil de explicar porque funciona. Não tem reservas naturais abundantes, foi destruído pela guerra, está no centro de diversos desastres naturais e vive numa região de tensão quase constante. Ainda assim, é um dos países mais ricos e avançados do mundo. A Argentina é exatamente o contrário: tem reservas naturais de quase todos os minérios importantes, não tem problemas de desastres naturais e está em uma região razoavelmente pacífica e, apesar de tudo isso, não funciona. E, aparentemente, ainda vai levar algum tempo para entrar nos eixos.

Documentário completo e legendado:

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