Semana de Cinema – Na captura dos Friedmans
por Patricia
em 24/02/14

Nota:

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O assunto pedofilia está em todo lugar atualmente graças às alegações de Dylan Farrow contra Woody Allen. O caso já rola há 20 anos, mas recentemente a internet explodiu em opiniões sobre evidências, alegações e etc. Não é um tema fofinho e eu nunca havia encontrado um documentário que tratava do assunto até assistir Na captura dos Friedman.

Os Friedman eram ricos, carismáticos e pareciam a família perfeita. O pai, Arnold Friedman era um professor renomado e dava aulas em casa de computação e piano. Em 1987, quando estavam reunidos em casa celebrando o feriado de Ação de Graças, a polícia bate na porta e diz ter um mandado para inspecionar a casa e prender Arnold sob a acusação de repassar pornografia infantil. Lembrando que isso ocorreu antes do boom da internet e pornografia era coisa de revista, apenas.

Ninguém entende nada e o documentário segue os passos da polícia e da família à medida que novos fatos vão surgindo. Alguns fatos são claros. Revistas com garotos menores de idade foram encontradas na casa; o próprio Arnold escreve uma carta para uma jornalista pedindo ajuda e conta que já teve contatos ‘inapropriados’ com meninos mas não com seus próprios alunos. Ou seja, ele era pedófilo mas não o foi nas circunstâncias em que estava sendo julgado.

Para piorar as coisas, o filho mais novo do casal, Jesse – de 18 anos – também é implicado no caso. Acredita-se que ele sodomizava os meninos junto com o pai.

Por anos, investigações e entrevistas são feitas e o caso da promotoria é montado.

O documentário não tenta, no entanto, eximir a culpa de Arnold e Jesse ou prová-la. A idéia de Andrew Jarecki é mostrar como o caso foi conduzido e como a família foi afetada. E te digo, a coisa não foi bonita. Enquanto muitas famílias acabam fortalecidas por coisas desse tipo, unindo-se para provar que os réus são inocentes, os Friedman entraram em modo de auto-destruição. O filho do meio, por exemplo, recusou-se a ser entrevistado para o documentário e aparentemente não tem mais nenhum relacionamento com a família.

O filho mais velho, David, aparece diversas vezes defendendo o pai e afastou-se da mãe, acusando-a de pedir que o pai se entregasse. Ele fala de maneira muito aberta sobre como não deseja ver a mãe e gostaria que ela “fosse para o inferno”.

O filme levanta questões tanto sobre o caso quanto sobre nós mesmos – à medida que novas informações vão sendo reveladas, é impossível não questionar se houve um pré-julgamento enquanto se assistia a tudo na tela. Ou seja, nós como sociedade estamos acostumados a julgar algo sem muitas provas só porque alguém disse que era assim. A polícia nesse caso não pode estar errada. Ou pode? Me lembrou muito o caso da Escola Base.

Sinceramente, terminei o filme sem saber no que acreditar. Arnold foi preso e aceitou a culpa por crimes cometidos, sim, contra meninos. Mas aparentemente não contra aqueles que disseram que foram molestados – as informações nesses casos não parecem bater. Jesse, por outro lado, tinha pouquíssimas coisas a seu favor apesar das provas contra ele parecerem feitas de ar. O sistema judiciário americano pode ser um pouco esquizofrênico e, nesse caso, especialmente por parte de Jesse, não se sabe se quem está preso é inocente ou culpado. (Aliás, um fantástico documentário que trata de um caso mais intenso ainda é Paraíso Perdido, filmado em 3 partes no percurso de 20 anos que recomendo muito).

No fim, fiquei pensando se o documentário havia sido feito mais para mostrar que temos um problema sério com pedofilia ou um problema sério com uma sociedade que decide sua moral baseada em notícias nos jornais e na televisão, muitas vezes, não apenas mal pesquisadas mas formuladas com um propósito muito específico: apavorar o cidadão. E aí vem a perguntar que não quer calar: em quem podemos acreditar?

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