Semana de Cinema – Quem matou Pixote?
por Patricia
em 21/07/14

Nota:

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Há muito tempo eu tentei assistir o clássico premiadíssimo de Hector Babenco – Pixote – a lei do mais fraco. O filme, lançado em 1980, falava da realidade dos meninos de rua e tudo o que ainda é atual. Não consegui ver o filme todo. Lembro que fiquei um pouco nervosa com as cenas que tratavam de estupro na FEBEM. O que lembro, e acredito que seja verdade para todo mundo que viu o filme, é da atuação do menino que interpretou Pixote – Fernando Ramos da Silva. Na época, com 9 anos ele despertava no espectador aquele sentimento de impotência frente a uma criança inocente forçada a viver daquele jeito.

Nunca mais tentei ver o filme, mas também nunca mais esqueci do menino com aquela cara de “sozinho no mundo”.

O que eu não sabia é que Fernando era, de fato, um menino de rua quando foi chamado para fazer o filme. Foi descoberto por uma das produtoras enquanto estava com sua mãe tentando vender rifas nas ruas de Diadema – no ABCD Paulista. Com a malícia de quem tem que sobreviver por conta própria desde que nasceu, ele naturalmente traduziu Pixote às telas. De repente, Pixote virou parte de seu sobrenome e ele ficou conhecido mais como Pixote do que como Fernando.

Quem matou Pixote? é um filme feito 16 anos de Pixote e retrata o que Fernando virou. Nesse caso triste de “vida imitando a arte”, Fernando não ficou muito atrás da pobreza e criminalidade.

Saindo do cinema, Fernando até tentou se manter na carreira artística, mas perdeu tempo precioso. Aos 15 anos, ele tentou voltar ao trabalho, mas quem se lembrava daquele menino que encantou nas telas, não ficou muito arrebatado com o jovem pobre, sem muita educação e nenhum refinamento que ele havia se tornado. A consequência foi que apesar de tudo, Fernando não podia negar que talvez seu caso fosse daqueles de “uma vez na vida”.

Sem trabalho e sem muitas opções, ele tenta um roubo com o irmão mais novo. Quando é preso, os policiais fazem questão de chamar a mídia e dizer que aquele Pixote que eles conheciam, havia seguido a mesma linha na vida – o crime. A mídia que uma vez lhe deu todas as atenções, agora mal dedicava uma pequena coluna para sua história.

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A partir dessa estréia criminal, Fernando ficou sem saída. Marcado pela polícia, semi analfabeto e sem perspectiva, ela começa a roubar carros com os irmãos. Isso até serve para colocar comida na mesa por um tempo e, apesar de não gostar do que faz, ele não parecer ter outra escolha. Sua grande derrocada acontece quando o irmão mais novo é assassinado pela polícia e o mais velho decide que precisam de um golpe grande para que tenham dinheiro o suficiente para fugir, já que estão marcados para morrer.

Decidem assaltar uma fábrica no dia de pagamento – quando o dinheiro vivo estará à disposição. Fernando reluta, mas com as circunstâncias em que vive – agora casado e com uma filha recém nascida para criar – acaba aceitando participar do roubo. Só que chega tarde demais e enquanto tenta fugir da cena do crime é perseguido por policiais da Rota e, em uma cena deprimente, alvejado 8 vezes. Morre aos 19 anos.

O filme é de 1996 e a atuação é forçada em alguns momentos pelos atores jovens. Tuca Andrada está muito bom como o irmão marginal mais velho. No geral, o enredo é mais profundo do que a atuação e me deu vontade de tentar assistir Pixote de novo. A cada nova etapa no fundo do poço de Fernando, há uma foto de seu passado queimada em cena. É como uma marcação a fogo do que ele ainda terá que enfrentar.

O filme foi baseado no livro “Pixote nunca mais” de Cida Venâncio – viúva de Fernando.

Quando o jornalista Caco Barcellos entrevistou três testemunhas sobre o crime, nenhuma confirmou a versão da polícia de que Fernando tinha atirado primeiro.

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