Semana de Cinema – Zuzu Angel
por Patricia
em 22/04/14

Nota:

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No começo da década de 70, Zuleica – Zuzu – Angel era uma estilista brasileira badalada nos Estados Unidos e pronta para tomar o mundo. Presença constante na elite brasileira (composta de muitos militares), ela enfrentava uma realidade em casa muito diferente. Stuart, seu filho, havia aproximado-se de movimentos de esquerda e estava atualmente participando de assaltos a bancos.

Enquanto se prepara para comemorar a aprovação de um financiamento que poderia elevar sua marca, Zuzu recebe a notícia de que Stuart foi preso pelos militares. Ela vai com as filhas procurá-lo, mas ninguém pode dizer nada sobre Stuart. Os advogados não podem ajudar porque os militares acabaram com o Habeas Corpus para crimes políticos.

Zuzu é rápida. Utilizando-se de seus contatos com as esposas da alta sociedade, ela consegue ajuda de um General que vai com ela para procurar seu filho. Sem sucesso. Militar após militar, todo negaram estar com Stuart. Com a insistência para achar seu filho, ela vira alvo dos militares que começam a mantê-la sob vigilância.

O filme é alinear e vai e volta no tempo para nos mostrar que Zuzu foi uma mulher que enfrentou paradigmas desde muito cedo na vida. Com o ex marido, um americano, teve três filhos. Quando separaram-se, ela retornou com os filhos para o Rio de Janeiro apenas para conviver com o estigma de que “mulher desquitada é tudo vagabunda”.

Um dia, ela recebe uma carta de um companheiro do filho narrando a morte de Stuart. Ele conta como foi a captura dos dois e como foi o processo de tortura. As cenas são fortes. Como diz um dos militares: “A tortura é uma questão de tempo…e de dor”. As torturas a que Stuart foi submetido foram coisas mais do que tenebrosas e brutais. A busca de Zuzu agora muda. Ao invés de buscar Stuart nas prisões, ela começa a buscá-lo em cemitérios. Stuart morreu sob tortura e ninguém sabe onde está seu corpo.

E aí, a mulher que pedia para o filho “deixar disso”, que tentava evitar dar opiniões políticas muito firmes, passou a bater de frente com os militares. Ela procura jornais, sem nenhum retorno. Ela faz cópias da carta que recebeu e envia para todos os intelectuais, políticos e a maioria das pessoas influentes com quem tinha contato. Seus olhos estão abertos para a realidade ainda que ela própria continue sendo ignorada. Seus vestidos de flores não importam mais.

A melhor parte é o julgamento de Stuart…depois de morto. Ele é inocentado…mas…hey, oopss…não adianta mais. É uma palhaçada sem tamanho.

Luana Piovanni interpreta Elke Maravilha, amiga e modelo de Zuzu. A própria Elke faz uma participação especial. O desfile seguinte de Zuzu seria emblemático: os tons vibrantes e agradáveis, dão espaço a tons escuros e estampas pesadas. Ao final do desfile ela entrega uma foto do filho para todos os presentes. Ela queria que a imprensa internacional contasse a verdade. Mal sabe ela que pedir ajuda nos EUA é o mesmo que nada, já que o país apoiou o golpe e os Governos militares subsequentes. Ainda assim, ela não deixa de tentar.

Patricia Pillar é incrível. Não sei quantos corações dar para essa mulher. Atuação fantástica. É um filme grande, com boas atuações sobre um vida verdadeiramente trágica. Zuzu morreu em um acidente de carro que, anos depois, foi reconhecido como atentado. Ninguém nunca foi preso pela morte nem de Zuzu, nem de seu filho (cujo corpo foi jogado no mar). Recomendo ver e rever e ver de novo, mas separe muitos lencinhos e esteja certo de que está em dia com o cardíaco.

Chico Buarque, amigo da estilista, escreveu uma música (Angélica) para Zuzu após sua morte que é absurdamente triste.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”

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