Resenha – A arte cavalheiresca do arqueiro zen
por Thiago
em 13/11/13

Nota:

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A arte cavalheiresca do arqueiro zen é algo no mínimo surpreendente para a lógica ocidental. Este é um livro que trata de uma experiência Zen budista, porém de um modo direto, não filtrado pelo intelecto.

Não se trata de um livro rebuscado sobre uma cultura distante da nossa, e sim de uma tentativa de traduzir os pensamentos do zen para leitores comuns. Este, também não é um livro sobre arco e flecha ou sobre zen-budismo, não é também um livro de auto-ajuda, ou de ajuda (não gosto do termo “auto-ajuda”, afinal, se a ajuda está em um livro escrito por um outro como pode ser uma “auto-ajuda”? O conteúdo de um livro pode até te ajudar, deste com certeza te ajudará em algo, no mínimo a entender um pouquinho sobre o universo do Zen, se depois disso você será alguém melhor ou não é outra história, algo para além de uma simples leitura).

O autor, de origem alemã, Eugen Herrigel passou seis anos no Japão, algo em torno do ano de 1924 a 1929, onde lecionou filosofia na Tohoku Imperial University. Seu interesse no misticismo, no pensamento e na cultura oriental incitou sua curiosidade pelo kyudo, uma arte milenar oriental com o uso do arco e flecha. Seu mestre foi Kenzô Awa (1880-1939). Sua esposa o acompanhou nesta jornada espiritual, estudando a arte dos arranjos florais.

O livro é basicamente a história da experiência vivida por Herrigel ao praticar o arqueirismo enquanto esteve no Japão. Entretanto o arqueiro zen, difere do arqueiro tradicional que podemos ver nas olimpíadas por um simples motivo, seu objetivo não é meramente atingir o alvo, isso é visto como uma conseqüência. O real objetivo está em unir consciente e inconsciente com o arco; tal como a espada do samurai pode ser vista como extensão do braço do guerreiro, o arco e a flecha também são parte daquele que dispara a flecha, tornando o movimento algo natural, como caminhar. A técnica Zen desafia a lógica ocidental que se prende ao pensamento lógico científico, aqui o que importa é o caminho até algo e não alcançar algo. O que nos muda é o caminho. Imagine uma lenda de uma água mágica e sagrada no alto de uma montanha muito alta e quase impossível de se escalar, aquele que se dispõe a fazer o trajeto da montanha, ao alcançar o topo já será outro e não o mesmo que começou a jornada, ai já não importa se a água é sagrada e tem poderes mágicos ou se vai te dar xistose.

Heráclito, um filósofo grego pré-socrático, nos adverte para o fato de que o homem não pode entrar num rio mais de uma vez, não apenas porque tal rio já não é o mesmo, mas porque ele, o homem, também mudou.

Assim “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” nos mostra a utilização do arco para se alcançar a compreensão do Zen. Porém, na cultura da filosofia/religião zen budista há diversos modos de se alcançar a união do consciente com inconsciente, seja através de uma espada, de uma arco e uma flecha, de uma dança, do manusear flores ou de uma postura de meditação.

A sensação que tive ao ler este livro pela primeira vez, foi a de ouvir as histórias de alguém que acaba de regressar do Japão, ou como se Herrigel fosse um senhor que nos contava os casos de sua vida, como a vez em que ele, filósofo alemão, aprendeu Kyudo no Japão. E depois de ouvirmos suas histórias, nos sentimos como se a flecha desse  arqueiro germânico nos atingisse no ego, no nosso eu de desejos e certezas, de prazeres e desprazeres, e nos deixasse repletos de incertezas que a razão se mostra incapaz de aplacar.

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2 Comentários em “Resenha – A arte cavalheiresca do arqueiro zen”


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vicente franz cecim em 05.01.2016 às 16:14 Responder

Lúcido, translúcido. aVe

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Jane Araújo em 28.11.2016 às 16:36 Responder

Já comecei a ler “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” mais de uma dezena de vezes, sempre para no início, não sei porque. Ontem, o livro que fica circulando do meu criado mudo à estante localizada no mezanino, passando pela mesa da sala até o banheiro, caiu-me novamente nas mãos e percebi que só agora, aos 63 anos e num momento crítico da vida, estou preparada para lê-lo. Vai ser uma experiência e tanto e, desta vez, não o abandonarei enquanto não chegar ao fim da narrativa. Vim até este site pesquisar sobre o que falam do livro, a ler a resenha, tive essa certeza de que a hora é agora.


 

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