Resenha – Bom Dia Camaradas
por Gabriel
em 22/02/14

Nota:

Bom Dia CamaradasA literatura africana contemporânea revelou diversos grandes autores para a língua portuguesa. Tal língua é tão re-significada e reinventada nas obras destes autores que talvez merecesse um nome próprio; não há dúvidas, porém, de que são excelentes exemplos de boa literatura escrita em português. Aqui no Poderoso já tivemos a presença do moçambicano Mia Couto e do angolano Agualusa, que agora ganham a companhia de Ondjaki.

Ondjaki é o pseudônimo de um escritor de 36 anos, que nasceu em um contexto mais atual do que os autores supracitados. Sua produção inclui poesias, romances, contos, novelas, e continua a se expandir. E Bom Dia Camaradas é prova de que obras em prosa também podem ser poéticas.

O romance nos apresenta à infância de um garoto em uma Angola em polvorosa, dominada por forças revolucionárias após a independência do país. É uma infância simples, que guarda muitas semelhanças em relação à das crianças brasileiras (como as brincadeiras feitas uns com os outros), mas que convive com essa sombra diária de um país em mudança.

O personagem principal narra sua vida de seu ponto de vista. Ou seja, a obra é totalmente guiada por uma criança. E Ondjaki faz isso com maestria, descrevendo sensações e impressões que só quem está conhecendo o mundo agora pode ver com tanta clareza. A relação do personagem principal (cujo nome só é citado uma vez durante o livro, de passagem) com o empregado de sua casa também é um dos pontos altos do livro; Camarada António viveu em outros tempos e se dedica totalmente à casa de seus patrões, sendo responsável pelos melhores diálogos da obra. São conversas iniciadas por uma criança, que vê o mundo com simplicidade, e rebatidas pelo conservadorismo e desesperança de quem já cansou de torcer por melhoras:

— Mas, António… Tu não achas que cada um deve mandar no seu país? Os portugueses tavam aqui a fazer o quê?

— Ê!, menino, mas naquele tempo a cidade estava mesmo limpa… tinha tudo, não faltava nada…

— Ó António, não vês que não tinha tudo? As pessoas não ganhavam um salário justo, quem fosse negro não podia ser director, por exemplo…

— Mas tinha sempre pão na loja, menino, os machimbombos funcionavam… — ele só sorrindo.

— Mas ninguém era livre, António… não vês isso?

— Ninguém era livre como assim? Era livre sim, podia andar na rua e tudo…

— Não é isso, António — eu levantava-me do banco. — Não eram angolanos que mandavam no país, eram portugueses… E isso não pode ser…

O livro traz diálogos mais leves, momentos muito mais poéticos, que são o que realmente faz a obra valer a pena. A visão de uma criança sobre o mundo é replicada com detalhes e por vezes leva o leitor a viajar para aquele momento, em uma infância angolana que provoca nostalgia sem nunca a termos vivido. É impossível passar por suas descrições da natureza e dos cheiros da manhã em sua casa sem esboçar um sorriso. Se procuras boa literatura, pode apostar em Bom Dia Camaradas.

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