Participação especial – A bagagem do viajante
por Patricia
em 11/05/18

Por Rosário Silva: Instagram @clioecaliope

Somos um grupo de leitoras e leitores que pretendem ler um livro de Saramago ao mês, começamos por este, em abril, o próximo será Objecto Quase, um livro de contos. Usamos a #saramagoentrenós para nos encontrar e partilhar impressões.

Se eu fosse você, lia todos.

A Bagagem do Viajante é o segundo livro de crônicas do escritor português, José Saramago, publicado em 1973 pela Porto Editora. No Brasil, foi publicado em 1996 pela editora Companhia das Letras. O livro abarca um conjunto de 59 crônicas escritas entre 1969 e 1972 para os jornais “A Capital” e o “Jornal do Fundão”. O jornal vespertino “A Capital” imprimiu sua primeira edição em 1968 e a última em 2005. Era um gerido por um grupo de jornalistas contrário ao regime político autoritário do Estado Novo – instaurado pelo Golpe Militar (1926) e se manteve até a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974; o “Jornal do Fundão”, era um jornal regional, fundado na cidade do Fundão em 1946, foi multado e suspenso pela censura, em 1965, por um período de seis meses, porque publicou uma matéria elogiosa sobre o Prêmio da Sociedade Portuguesa de Escritores concedido ao escritor Luandino Vieira, que era considerado subversivo e estava preso no Tarrafal, Cabo Verde.

É sob e sobre essas condições históricas que Saramago escreve essas crônicas. O livro trata de histórias e temas variados, por meio de uma escrita leve, por vezes densa, sempre concisa e política. Se o comprometimento do autor, não nos permite esquecer as condições nas quais as crônicas foram escritas e publicadas, a leveza nos possibilita o reconhecimento das coisas simples: viajar com amigos, ver estrelas, saber de onde vimos, não saber “que tamanho tem o tempo na infância”, nem o que o tempo é.

Penso que o título, a bagagem do viajante seja uma metáfora que nos remete à bagagem do leitor-viajante que coleciona instantes e cenas, que a cada paragem recolhe pedras, seixos, conchas; que a cada livro lido torna sua bagagem mais densa. O percurso é imprevisível. Enquanto viajamos podemos meditar sobre o roubo, se tivermos paciência para aturar Victor Hugo e grudar os olhos no Grande Tufo de Ervas de Albrecht Durer, que no livro, nasce de palavras mortas, não de pinceladas.

Entre as várias crônicas, escolhi as minhas preferidas: o tempo das histórias e o tempo e a paciência, coincidência ou não, ambas intentam dizer coisas sobre o tempo. Sobre o tempo das palavras quando ouvidas pela primeira vez. Assombro e encantamento. Sobre o tempo das palavras de quem é dada a autoridade ou a ordem de falar. Censura e obediência. A paciência do tempo e o seu trabalho monótono que faz “rebentar flores de pedra no chão”.

Ao final, indico a leitura para quem gosta de livros, viagens, museus, histórias.

Se eu fosse você, começava já.

Nota: Ao longo de sua vida, o autor, publicou outros livros de crônicas: i) Deste Mundo e do Outro (Biblioteca Arcádia de Bolso, 1971); ii) Os Apontamentos (Seara Nova, 1976); iii) Poética dos Cinco Sentidos: o Ouvido, (Livraria Bertrand, 1979); iv) Moby Dick em Lisboa (Colecção 98 Mares, 1998) e v) Folhas Políticas: 1976-1998 (Editorial Caminho, 1999).

 

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