Participação Especial – A mulher de mil olhos
por Poderoso
em 11/05/20

Nota:

Por Raphael Pantet

O uso de imagens é uma das ferramentas mais interessantes e eficientes na literatura. Construir experiências sensoriais através das palavras aprofunda nossa experiência de leitor, passamos a sentir, tocar, ouvir palavras escritas no papel. O poeta romano Horácio resume essa idéia na frase ut pictura poesis, em português significa “como é a pintura também é a poesia” ou “pintar como se escreve”. Este conceito se aplica não apenas a descrições, mas também a composição, a escolha por um destaque ou dados nos cantos, as vezes uma informação fundamental, porém oculta para aguçar nossa curiosidade, assim como tudo que é cru e armazenado em nosso cérebro e deixado no texto como conteúdo não-processado, mas por qualquer motivo nos fez pensar, despertou algo cuja existência desconhecíamos. Onde se chega quando atomizamos poesia e pintura, tentamos chegar a sua partícula mais elementar? Chegamos a linguagem, e A Mulher de Mil Olhos de Verônica Ramalho.

Livro de estréia da autora publicado em 2018 pela Editora Córrego, trata-se de um poema em prosa de aproximadamente 40 páginas primoroso. A autora estabelece um narrador sem uma posição clara, declarando-se uma mulher de mil olhos a ver tudo e passa a descrever uma série de cenas que vão do cotidiano de São Paulo ao espaço – temos metrôs, peixes em buffet de restaurante self-service, luzes acesas em apartamentos com estantes repletas de livros e o fim de satélites circulando Saturno. O passeio ao longo da obra cria um organismo-narrador, transumano e produtor de uma unicidade de olhares – tudo é um e se encontra na linguagem-mulher. Um dos pontos mais interessantes é exatamente esse senso de único, de todos os olhares possíveis. Ao representar imagens acessíveis a todos passamos a ser também seus destinatários, recebemo-las e depositamos as nossas próprias através da leitura criando um poderoso exercício de alteridade – o ver-a-si passado ao ver-os-outros provoca um micro-universo literário, circular.

Ramalho usa uma linguagem densa, rica e fluída, cada um dos parágrafos se fecham com precisão e permite um claro entendimento do leitor, propiciando verdadeiros mundos-imagens que vão até onde precisam. A sonoridade das frases também merece destaque, por se tratar de prosa poética há um cuidado com as escolhas lexicais que, enquanto lidas, quase funcionam como um feitiço, um mantra a enredar o leitor. Uma das grandes conquistas desta forma de narrativa é exatamente mesclar a sensação de poesia com a forma da prosa, por isso temos frases de tamanho curto a médio, usando vírgulas para controlar seu ritmo e subordinação para aprofundá-las. Os diversos olhares são separados por espaço duplo, criando a impressão de um plano-sequência com poucos cortes, acompanhando diversos personagens e fixando brevemente em cada um deles – seriam as cenas iniciais de Magnólia em forma de poema.

Perto do final a autora dedica uma seção que faz as vezes de um epílogo, onde são dados nomes a uma série de mulheres e uma espécie de lembrete do tanto de pessoal na literatura – sejam aos personagens ou ao organismo-narrador, em algum grau estas cenas armazenadas em nosso cérebro viram arte, consciente ou não. Ao fim a mulher de mil olhos se liquefaz, e ficamos com nossos registros de poesia em todos os lugares, dos foguetes espaciais às células, sem saber se ainda somos sólidos ou se descemos pelo ralo. Em tempos de pandemia e embrutecimento intelectual ajuda a ver sensibilidade em cada coisa.

 A nuvem que traz chuva é um algodão sujo onde crescem dentes de cristal. Cada dente, gotas grossas, apedreja os ombros e se acumula nas pestanas. Queria chuva de diamantes para cegar minhas interfaces de percepção. A chuva mais linda que eu não poderia ver.

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