Participação Especial – Meninas que vestiam preto
por Poderoso
em 06/02/18

Nota:

Por Juliana Costa Cunha do IG @coisasqueleio

Meninas que Vestiam Preto, uma publicação da Editora Hedra – Selo Demônio Negro, nos apresenta as poesias da geração de mulheres Beats. Sim, poetisas da geração Beat. Se você, assim como eu, gosta dos poetas beats e já leu o suficiente sobre eles, talvez já tenha se perguntado a mesma coisa que eu: “Mas, cadê as mulheres escritoras dessa geração?”

A Geração Beat foi um movimento literário pós Segunda Guerra Mundial, tomando força entre a metade da década de 50 e início dos anos 60. Um grupo de intelectuais dos EUA começou a se reunir e produzir textos variados de forma bastante prolixa, expressando livremente seu cotidiano e visão de mundo. Este grupo andava sempre junto, escrevia sempre junto, viajavam e bebiam juntos. E tinham como música de fundo das suas vidas o Jazz.

Dessa época é fácil ouvir falar ou já ter lido sobre Jack Kerouac (o ícone do grupo e autor de On The Road), Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso, entre outros. Tudo era vivenciado com intensidade, na escrita e na vida. Caracterizava-se por uma escrita compulsiva, com fluxo de pensamentos desordenados. Faziam uso de uma linguagem informal, com muitas gírias e palavrões. Preconizavam a igualdade étnica e a liberdade sexual.

Fato é que estes rapazes estavam sempre cercados por mulheres. E, sempre me questionei sobre tanta liberdade que preconizavam em sua escrita e as relações de gênero estabelecidas à época. Além disso, sobre a total ausência de informação da participação efetiva dessas mulheres na Geração Beat enquanto escritoras.

Este pequeno grande livro tenta amenizar esta lacuna. Nele encontramos poesias escritas por mulheres dessa Geração. Mulheres que, segundo Gregory Corso existiam, estavam lá, fizeram parte. Porém, “suas famílias as internavam em sanatórios e elas recebiam choques elétricos. Na década de 50 se você fosse homem poderia ser um rebelde, mas se você fosse mulher, sua família poderia tranca-la. Presenciei muitos casos assim. Algum dia alguém vai escrever sobre isso.”

Parece que, finalmente, chegou a hora. Muito prazer Anne Waldman, fundadora da revista literária Angel Hair e autora de 42 livros publicados. Sua poesia seguia criando imagens fora do contexto e discutindo os novos caminhos da poesia nos EUA. Fundou junto com Allen Ginsberg A Escola Jack Kerouac de Poética Descorporizadas, em 1974. Buscava uma literatura “travestida, uma literatura de transformação que vai além de gêneros.” conforme suas próprias palavras em Femimanifesto (1994); Diane di Prima, um dos nomes mais conhecidos dessa geração, autora do livro Memórias de uma Beatnik e fundadora da Editora Poets Press; Elise Cowen, influenciada por Emily Dickinson, T. S. Eliot, Erza Poud e Dylan Thomas. Passou por diversas internações psiquiátricas, suicidando-se em 1962. A maior parte de seus textos foi destruída por seus vizinhos a pedido de sua família, inconformada com a vida que ela viveu e seu relacionamento amoroso com uma mulher; Marie Ponsot estudou literatura do sec. XVII na Universidade de Columbia. Escreveu quase toda sua obra enquanto criava seus 7 filhos sozinha, usando de composições poéticas difíceis e inserindo suas transformações pessoais e cenas urbanas em suas poesias. Denise Levertov, teve pais que a influenciaram desde cedo no hábito da leitura. Escreveu uma carta a T. S. Eliot aos 12 anos, recebendo deste uma resposta carinhosa e cheia de conselhos. Seu primeiro livro, A Imagem Dupla, foi publicado em 1946. Quando se naturalizou americana, passou a usar diálogos em seus poemas, influenciada pelos poemas de Williams Carlos Williams e do Grupo Black Mountain. Em 67 publicou The Sorrow Dance (A Dança da Tristeza) inserindo sua poesia na luta política e no movimento feminista.

O livro Meninas que Vestiam Preto, traz um pouco da história destas mulheres e uma ou duas poesias de cada. E dá água na boca pra gente pesquisar mais e mais sobre elas e lê-las!

“Coração, seu valentão, bandido, estou destruída,

desfeita, dura. E você? você ainda tenta governar o mundo, embora eu te tenha: identificado,

morto de fome, trancado numa gaiola de onde

não se pode sair vivo, por mais que eu odeie,

que você esmurre as paredes,

& encha de mensagens os corredores.

Bruto. Espião. Confiei em ti. Agora você gira

e grita na tua cavidade mas estou surda

à tua raiva, tua ânsia de voar sozinho,

tuas eloquentes ameaças de coisas ruins que

(conhecendo-me) poderia fazer.

Você me assusta, gabando-se de ser agente duplo

pois os carcereiros são prisioneiros dos

Presos também. Pensa! Muda! Faz-nos um apenas. Junta-te a nos,que reine a alegria e experimente conosco. ” MARIE PONSOT

“Sem amor

Sem compaixão

Sem inteligência

Sem beleza

Sem humildade

Vinte e sete anos são o bastante

Mãe – é tarde demais – anos de loucura – desculpe

Pai – O que aconteceu?

Allen – Desculpe

Peter – Juventude Santa Rosa

Betty – Tanta valentia feminina

Keith – Obrigado

Joyce – Menina linda

Howard – Cuide-se, meu bem

Leo – Abra as janelas e Shalom

Carol – Deixa acontecer

Deixe-me ir, por favor –

Por favor, deixe-me entrar.”  ELISE COWEN

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2 Comentários em “Participação Especial – Meninas que vestiam preto”


Camilla Dias em 07.02.2018 às 11:12 Responder

Parabéns!!
Muito bom conteúdo!!

Ana Paula Antunes Ferreira em 07.02.2018 às 13:24 Responder

Parabéns,Ju! Muito bem escrito e esclarecedor o seu artigo.Arrasou!


 

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