Participação Especial – Obras completas
por Poderoso
em 25/03/18

Por Caio Lima do Rede de Intrigas 

Murilo Rubião é o típico cara que todo mundo sabe quem é, mas poucos o conhecem. Todo bairro tem uma figura mais ou menos assim. E pensar nesse universo pequeno — que parece não ser maior que um quarteirão ou algumas ruas ou, até mesmo, uma cidade de interior daquelas em que todo mundo se conhece — ajuda a entender a estranheza e o mistério fundamental da mitologia que cerca a figura do autor. De modos simples, tal qual sua singeleza ao escrever, Rubião foi pouco prolífico, deixando apenas um apanhado de contos que juntos, na atual edição da Companhia das Letras, somam 250 páginas. Porém, seguindo o velho ditado de vó, “quantidade não é qualidade” e, com certeza, nessa coleção de pouco mais de 30 contos há a expressão de uma literatura a frente de seu tempo e, mais importante, espaço.

Se os saltos temporais inerentes à literatura de Rubião — e comuns ao realismo mágico, de maneira geral — são tão descompromissados quanto radicais, existe um espaço que, senão protagonista da narrativa que se propõe, sempre está a atuar como principal coadjuvante, ligando personagens e fatos a algo mais verossímil que o propriamente escrito. A sensação de habitar o conto, essa supremacia enquanto ao espaço bem definido de cada pequena história, transforma a experiência de ler Rubião numa das mais belas confusões que a literatura pode proporcionar ao leitor.

Dentro da curta obra de Rubião, e seus contos de dez ou menos páginas, existe muito de tudo, principalmente do que o define como expoente máximo do “realismo mágico” em terras tupiniquins. Porém, é difícil encaixa-lo em estereótipos depois da leitura.

A presença de soluções mágicas ou a simples complexidade em entender o desenrolar e a representação de certos padrões humanos-mas-nem-tanto, deixam alguns sentidos abertos dentro do mundo que Rubião desenvolveu. A inadequação e insatisfação constantes delegam ao leitor a difícil função de arbitrar comportamentos antes mesmo que esses tomem forma, apresentando apenas reflexos pouco claros de comportamentos solúveis às condições apresentadas. Como num mangue, os sentidos de cada conto são construídos sobre terreno insustentável e movediço. Num piscar de olhos, os reflexos fornecidos por Rubião sucumbem à força da própria narrativa, insólita e solúvel no lodaçal que é a realidade retratada e habitada pelo autor, porém tão próxima que é incapaz de ser considerada periférica caso seja vista através da sua significância ou pela simples vontade de não parecer significante, anulando-se na insatisfação e não pertencimento.

À incapacidade de provocar distanciamento, mesmo quando abusa da indiferença em alguns contos, deve-se levar em conta, justamente, a proximidade que todos os contos têm com frações de espaço, com porções facilmente cobertas pelos olhos. Quão mais fracionado o espaço, dentro da obra completa do mineiro, mais verossímil e próximo o conto está para quem o lê. Em consequência desse confinamento espacial, por exemplo, o coelho Teleco, do conto “Teleco, o coelhinho”, é real enquanto o conto é coabitado pelo leitor. Afinal, se o espaço é tão real e tão tátil, se o espaço pode ser enxergado sem maiores obstáculos, como um coelho que se transmuta em qualquer animal existente poderia não ser parte da realidade?

Aos demais sentidos da obra, os contos são plurais e, em aspectos, divergentes enquanto a condição humana. Normalmente trágico ou bucólico, Murilo Rubião desenvolve narrativas com sinais de descrença e evidencia uma forma de insatisfação geral com a saciedade do homem, mesmo aquele que habita uma fração menor de espaço, por vezes claustrofóbico.

As faltas e os excessos dos personagens de Rubião estão, normalmente, ligados a uma forma de ambição, que por vezes pode ser considerada busca, mas não necessariamente. Algumas ambições beiram à obsessão, que beiram a insanidade se visto por um conceito comum de normalidade. Cada conto, de forma particular, trata essa subversão da ambição em prol de um destino fatídico. Muitas das vezes interrompendo a ambição do personagem pela metade, conduzindo a narrativa a um sem-fim, há o maior troco que pode ser dado ao estado, por mais particular que seja, do que é ambição: mover-se horizontalmente.

Nisto, está outro aspecto da subversão de Murilo Rubião e um dos elementos que, junto ao espaço, podem proporcionar a noção de proximidade que seus contos acabam tomando, mesmo sem querer. É comum que os contos girem em torno de personagens horizontalmente distribuídos no espaço, sendo dilatados ou reduzidos nos cortes temporais e esporões cronológicos, destituindo da verticalidade hierárquica uma ordem ou uma tendência a moral e ética dentro do contexto.

Contendo traços do niilismo, do surrealismo e de outras correntes de pensamento e artísticas contemporâneas ao escritor, seus personagens travam batalhas semelhantes no decorrer dos contos, dentro dos contextos se desenvolvem de maneira peculiar e acabam por ceder ao desterro e a incredulidade da interrupção ou a ambição que é, sabe-se no fim, malsucedida. É uma sucessão de términos em meio ao incompreendido, partindo sempre da interrupção brusca da perseguição pelo objetivo-fim. A sensação de não chegar, talvez, seja pior que a sensação de não conseguir. E a essa distância entre alcançar e não estar minimamente próximo do ambicionado, que a multiplicidade de sentidos em Rubião extrapola valores morais e, sobre o que está escrito, estéticos.

Ler Murilo Rubião é uma experiência de desapego. Não há amarras, centro ou alternativas as quais possam ser dados valores ou aplicadas convicções por parte do leitor. O que sobra é um apelo à interrupção, ao corte brusco de um processo que, aparentemente, está prestes a se desenrolar. Em contrapartida, nota-se conforto e proximidade nas recorrentes falhas ao perseguir ambições minguantes. A esse conforto, proporcionado pelos espaços por vezes claustrofóbicos, há um apego semelhante à familiaridade e, logo, as derrocadas de cada conto são abafadas pela compreensão e subserviência aos destinos interrompidos. Afinal, suas ambições são reais ou são apenas convenientes? É quente.

Murilo Rubião é o típico cara que todo mundo sabe quem é, mas poucos o conhecem. Todo bairro tem uma figura mais ou menos assim. E pensar nesse universo pequeno — que parece não ser maior que um quarteirão ou algumas ruas ou, até mesmo, uma cidade de interior daquelas em que todo mundo se conhece — ajuda a entender a estranheza e o mistério fundamentais da mitologia que cerca a figura do autor. De modos simples, tal qual sua singeleza ao escrever, Rubião foi pouco prolífico, deixando apenas um apanhado de contos que juntos, na atual edição da Companhia das Letras, somam 250 páginas. Porém, seguindo o velho ditado de vó, “quantidade não é qualidade” e, com certeza, nessa coleção de pouco mais de 30 contos há a expressão de uma literatura a frente de seu tempo e, mais importante, espaço.

Se os saltos temporais inerentes à literatura de Rubião — e comuns ao realismo mágico, de maneira geral — são tão descompromissados quanto radicais, existe um espaço que, senão protagonista da narrativa que se propõe, sempre está a atuar como principal coadjuvante, ligando personagens e fatos a algo mais verossímil que o propriamente escrito. A sensação de habitar o conto, essa supremacia enquanto ao espaço bem definido de cada pequena história, transforma a experiência de ler Rubião numa das mais belas confusões que a literatura pode proporcionar ao leitor.

Dentro da curta obra de Rubião, e seus contos de dez ou menos páginas, existe muito de tudo, principalmente do que o define como expoente máximo do “realismo mágico” em terras tupiniquins. Porém, é difícil encaixa-lo em estereótipos depois da leitura.

A presença de soluções mágicas ou a simples complexidade em entender o desenrolar e a representação de certos padrões humanos-mas-nem-tanto, deixam alguns sentidos abertos dentro do mundo que Rubião desenvolveu. A inadequação e insatisfação constantes delegam ao leitor a difícil função de arbitrar comportamentos antes mesmo que esses tomem forma, apresentando apenas reflexos pouco claros de comportamentos solúveis às condições apresentadas. Como num mangue, os sentidos de cada conto são construídos sobre terreno insustentável e movediço. Num piscar de olhos, os reflexos fornecidos por Rubião sucumbem à força da própria narrativa, insólita e solúvel no lodaçal que é a realidade retratada e habitada pelo autor, porém tão próxima que é incapaz de ser considerada periférica caso seja vista através da sua significância ou pela simples vontade de não parecer significante, anulando-se na insatisfação e não pertencimento.

À incapacidade de provocar distanciamento, mesmo quando abusa da indiferença em alguns contos, deve-se levar em conta, justamente, a proximidade que todos os contos têm com frações de espaço, com porções facilmente cobertas pelos olhos. Quão mais fracionado o espaço, dentro da obra completa do mineiro, mais verossímil e próximo o conto está para quem o lê. Em consequência desse confinamento espacial, por exemplo, o coelho Teleco, do conto “Teleco, o coelhinho”, é real enquanto o conto é coabitado pelo leitor. Afinal, se o espaço é tão real e tão tátil, se o espaço pode ser enxergado sem maiores obstáculos, como um coelho que se transmuta em qualquer animal existente poderia não ser parte da realidade?

Aos demais sentidos da obra, os contos são plurais e, em aspectos, divergentes enquanto a condição humana. Normalmente trágico ou bucólico, Murilo Rubião desenvolve narrativas com sinais de descrença e evidencia uma forma de insatisfação geral com a saciedade do homem, mesmo aquele que habita uma fração menor de espaço, por vezes claustrofóbico.

As faltas e os excessos dos personagens de Rubião estão, normalmente, ligados a uma forma de ambição, que por vezes pode ser considerada busca, mas não necessariamente. Algumas ambições beiram à obsessão, que beiram a insanidade se visto por um conceito comum de normalidade. Cada conto, de forma particular, trata essa subversão da ambição em prol de um destino fatídico. Muitas das vezes interrompendo a ambição do personagem pela metade, conduzindo a narrativa a um sem-fim, há o maior troco que pode ser dado ao estado, por mais particular que seja, do que é ambição: mover-se horizontalmente.

Nisto, está outro aspecto da subversão de Murilo Rubião e um dos elementos que, junto ao espaço, podem proporcionar a noção de proximidade que seus contos acabam tomando, mesmo sem querer. É comum que os contos girem em torno de personagens horizontalmente distribuídos no espaço, sendo dilatados ou reduzidos nos cortes temporais e esporões cronológicos, destituindo da verticalidade hierárquica uma ordem ou uma tendência a moral e ética dentro do contexto.

Contendo traços do niilismo, do surrealismo e de outras correntes de pensamento e artísticas contemporâneas ao escritor, seus personagens travam batalhas semelhantes no decorrer dos contos, dentro dos contextos se desenvolvem de maneira peculiar e acabam por ceder ao desterro e a incredulidade da interrupção ou a ambição que é, sabe-se no fim, malsucedida. É uma sucessão de términos em meio ao incompreendido, partindo sempre da interrupção brusca da perseguição pelo objetivo-fim. A sensação de não chegar, talvez, seja pior que a sensação de não conseguir. E a essa distância entre alcançar e não estar minimamente próximo do ambicionado, que a multiplicidade de sentidos em Rubião extrapola valores morais e, sobre o que está escrito, estéticos.

Ler Murilo Rubião é uma experiência de desapego. Não há amarras, centro ou alternativas as quais possam ser dados valores ou aplicadas convicções por parte do leitor. O que sobra é um apelo à interrupção, ao corte brusco de um processo que, aparentemente, está prestes a se desenrolar. Em contrapartida, nota-se conforto e proximidade nas recorrentes falhas ao perseguir ambições minguantes. A esse conforto, proporcionado pelos espaços por vezes claustrofóbicos, há um apego semelhante à familiaridade e, logo, as derrocadas de cada conto são abafadas pela compreensão e subserviência aos destinos interrompidos. Afinal, suas ambições são reais ou são apenas convenientes? É quente.

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