Resenha – 4321
por Patricia
em 21/12/18

Nota:

Paul Auster é um nome já reconhecido no meio literário. Sua “Trilogia de Nova York” já me foi recomendada incontáveis vezes. Apesar de ter comprado um exemplar, decidi começar minha aventura pelos escritos do autor com sua mais recente, e ambiciosa, obra: “4321”. 

De fato, a palavra “ambiciosa” foi usada diversas vezes para descrever “4321” – primeiro livro de Auster em sete anos. Nas 800+ páginas, o autor se propõe a embarcar por aquela eterna questão que afeta a todos nós em algum momento: “e se…?”. Quem nunca pensou como sua vida poderia ter sido se tivesse conhecido outra pessoa, se tivesse decidido mudar de emprego anos antes, se tivesse estudado alguma outra coisa e por aí vai? 

Para nos guiar, temos Archibald Isaac Ferguson – conhecemos sua família e um pouco dos caminhos que levaram ao casamento de seus pais e seu nascimento. Aqui termina a história linear – padrão que conhecemos. Quando Archie começa a questionar algumas coisas de sua vida, o autor decide nos mostrar quatro caminhos com todas as suas consequências e alterações, destrinchando a mesma vida de quatro maneiras totalmente diferentes.  

Mais além, o livro tem como pano de fundo os intensos anos 50, 60 e 70 dos Estados Unidos – a ascensão e queda dos Kennedys, o movimento negro pelos direitos civis, Nixon e a Guerra do Vietnã. Em uma versão temos opiniões claras dos personagens sobre o que acontece, em outra esse é apenas o noticiário. 

Nenhum desses parâmetros são novos. Muitas obras já foram escritas sobre as décadas citadas e algumas outras já abordaram a questão de um final, ou um enredo, alternativo. Por exemplo, em “O mundo pós aniversário” de Lionel Shriver (autora do fantástico “Precisamos falar sobre o Kevin”) cria um universo paralelo em que a protagonista vive uma história totalmente diferente quando questiona se deveria sair com outro homem apesar de viver um relacionamento feliz. Ela alterna os capítulos criando uma estrutura narrativa especifica para cada “roteiro”. É bem similar ao que Paul Auster criou em “4321”. 

Portanto, a ideia não é necessariamente inovadora. O que faz da obra de Auster algo singular é o nível em que o autor busca criar versões totalmente alternativas e intricadas que acontecem no mesmo cenário –
em cada uma, a família Ferguson tem uma posição social diferente (classe média, classe alta ou classe baixa), por exemplo, e isso impacta diretamente as escolhas da família em diversos momentos. Os capítulos são enumerados de maneira que torna possível ao leitor acompanhar uma história de cada vez ou entrar de cabeça e se afundar na completa confusão deliciosa que é descobrir quem é o Archie real ou o que realmente aconteceu. Temos 4 versões de cada capítulo (1.1, 1.2, 1.3 e 1.4). Os primeiros capítulos podem deixar o leitor um pouco confuso até que seja possível entender o fluxo da escrita.

O que Auster também permite ao leitor é descobrir como Archie se torna o herói e/ou o anti-herói de sua própria vida transformando-o em um personagem palpável e falho que dá vontade de seguir e por quem queremos torcer (ou não). Há uma boa discussão sobre como o meio afeta a pessoa, suas decisões e as consequências além, claro, de como as pessoas ao seu redor também afetam sua vida de maneiras inesperadas. 

Além disso, a obra é quase uma longa lista de recomendações literárias com tantas obras e personagens citados (Archie é um grande leitor em pelo menos duas das histórias):

Foi este último título (Crime e Castigo) que pôs fim às toscas fantasias de Ferguson sobre se tornar um novo Clarence Darrow, pois ler Crime e Castigo o transformou, foi o raio que caiu do céu e o fez em mil pedaços, e quando ele juntou de novo seus pedaços Ferguson já não tinha mais dúvidas sobre o futuro, pois se era isso que um livro podia ser, se isso era o que um romance podia fazer com o coração, a mente e os sentimentos mais profundos de uma pessoa a respeito do mundo, então escrever romances era certamente a melhor coisa que uma pessoa podia fazer na vida…. (pág. 334)

[…] a jovem e espirituosa Everyn Monroe, que tinha só vinte e o oito anos quando Ferguson começou a assistir às suas aulas, o antídoto vibrante para a antiquada, reacionária e antimodernista sra. Baldwin, a professora Monroe, que em solteira se chamava Ferrante, uma garota italiana robusta […] e o que distinguia a professora Monroe de todos os outros professores que Ferguson já tiveram era que ela encarava seus alunos como pessoas plenamente formadas, seres humanos independentes, adultos crescidos, e não crianças grandes… (pág. 458)

De fato, muitos personagens de “4321” têm nomes de autores ou de personagens conhecidos (em uma das histórias, Ferguson escreve um conto sobre a vida de Gregor Flamm – referência a Gregor Samsa, personagem principal de “A metamorfose” de Kafka). Esses pequenos achados fazem com que a leitura seja uma grande diversão para leitores experientes e/ou um prato cheio para quem quer montar uma lista de boas opções de leituras futuras. Descobrir essas referências, às vezes óbvias, às vezes mais escondidas, cria um elo de conexão não apenas com a história, mas com o autor. 

Nessas 800 páginas, Auster também acrescenta com histórias dentro da história – Archie escreve um conto e temos acesso a ele completo; Archie quer escrever um livro, temos trechos da obra; a mesma coisa com poemas e etc. Esses trechos podem ser desinteressantes e não acrescentam tanto assim ao personagem. Afinal, não estamos julgando os méritos literários de Archie. 

Há outros momentos  em que a leitura se torna cansativa. Auster pode ser bem descritivo sobre assuntos que não são tão interessantes ou tão fáceis de ler sobre – como um jogo de beisebol. Pode ser que um leitor interessado no esporte ache esses trechos incríveis, mas no geral, eles são longos demais e podem ser arrastados. Um outro ponto que é descrito quase à exaustão são as discussões e confusões políticas que ocorriam na Universidade de Columbia em 1968.

Ainda assim, a criação de todo um novo universo familiar em cada história prova que, acima de tudo, Auster é um incrível criador de mundos. Cada longo parágrafo é usado para criar a personalidade daquele Archie com cuidado – como a vida nos forma também, um dia depois do outro. Os acontecimentos não aparecem de forma brusca e inesperada. Muitas vezes, temos uma ideia do que acontecerá porque é possível ver o autor construindo o cenário. Isso faz com que cada Archie seja um personagem completo em si mesmo.

O blurb da capa é uma frase do The New York Times: “um conjunto monumental de ficções.” Essa talvez seja uma das poucas situações em que um blurb está te dizendo a pura verdade. 

***

O livro foi enviado pela editora. 

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – 4321”


 

Comentar