Resenha – A Amiga Genial
por Ragner
em 29/08/17

Nota:

 

Elena Ferrante já apareceu no Poderoso com a resenha de A Filha Perdida e por curiosidade em relação a essa escritora que permanece em anonimato, conhecida apenas pelo pseudônimo, decidi começar sua famosa Tetralogia Napolitana. Elena escreve com bastante riqueza de acontecimentos, tudo o que vai ocorrendo na vida das duas é detalhado aqui, seja algo grande ou pequeno (aqui entra minha percepção limitada de que sou um leitor masculinizado), então podem aguardar por mais livros dela, enveredando por mistérios de Juventude, Maturidade e Velhice.

“A amiga genial”, que inicia a aclamada série de 4 livros conhecida como “Série Napolitana”, Elena Ferrante conta uma história sobre infância e adolescência e temos como narradora uma mulher chamada Elena Greco, que relata como foram essas duas fases de sua vida logo após saber que sua amiga Raffaella Cerullo tinha desaparecido. Greco, já uma mulher que constituiu família e de certa idade, ao receber a notícia de que Raffaella, conhecida como Lila, tinha fugido, decide escrever sobre a história das duas. Se a amiga queria desaparecer sem deixar rastros, ela se encarregaria de deixar claro que ela existiu.

Elena narra como sua amizade com Lila começou, como em vários momentos a inveja tomava conta de seus pensamentos e também como sentimentos de adoração e ciúmes persistiam em situações que as acompanharam desde quando eram crianças até se tornarem adolescentes. Na escola Lila tirava as melhores notas e após as mudanças corporais que os anos impuseram às meninas, os garotos olhavam com mais interesse para ela do que para Elena. Depois de se formarem na escola primária, Lila precisou trabalhar com sua família e Elena continuou os estudos, com certo apoio do pai (e por insistência de uma professora).

O cenário temporal do livro se passa na década de 50, na Itália pós 2 guerra, tomada pelo machismo e pela crença de que garotos precisavam aprender o ofício dos pais, enquanto garotas não necessitavam de tanto estudo. Elena, que era impulsionada a se formar, mantinha contato com sua amiga, que já enveredava por outras áreas (ela e o irmão pensavam em como desenvolver melhor o trabalho do pai sapateiro). Lila possuía a curiosidade e inteligência de uma autodidata e sempre se mostrou à frente da amiga (mesmo com essa continuando os estudos e apenas contando quais eram suas matérias escolares). Elena vivia em permanente disputa com Lila, que fazia questão em demonstrar total interesse por tudo.

 

Logo precisei admitir que as coisas que eu fazia sozinha não eram capazes de disparar meu coração, só aquilo que Lila tocava se tornava importante. Se ela se distanciava, se sua voz se afastava das coisas, estas se cobriam de manchas, de poeira. A escola média, o latim, os professores, os livros, a língua dos livros me pareciam definitivamente menos sugestivos que o acabamento de um sapato, e isso me deprimiu. 

 

Elena Ferrante tem um estilo dos mais expressivos que já li, foi na construção e interação entre personagens que eu mais senti a diferença na escrita, exemplo como a percepção feminina sobre relacionamentos afetivos e também em relação aos laços de amizades. Depois de ler A Amiga Genial, tive a interessante constatação de que sou um leitor culturalmente condicionado a escolher livros tematicamente masculinos. Dessa forma, a leitura me ajudou a entender certas limitações pessoais que tenho como leitor e isso foi um resultado muito positivo porque só podemos mudar quando entendemos nossas restrições.

 

Voltando da escola, temia encontrá-la e saber de sua própria voz cativante que agora ela fazia amor com Peluso. Ou, se não fosse ele, era Enzo. E, se não era Enzo, era Antônio. Ou então, sei lá, Stefano Carracci, o salsicheiro, ou até Marcello Solara: Lila era imprevisível. Os rapazes que zumbiam à sua volta eram quase homens, cheios de pretensões. Consequentemente, entre o projeto de sapatos, as leituras sobre o mundo horrível no qual fomos parar ao nascer e os namorados, ela não teria mais tempo para mim. 

 

Mesmo já tendo lido algumas escritoras (na tentativa de acrescentar ao nosso #leiamulheres), essa foi a primeira vez que consegui identificar o modo diferenciado de escrita de uma mulher. É muito fácil e cômodo acompanhar pensamentos e personalidades que remetem a uma realidade masculinizada (pelo menos para mim), mas esse livro me trouxe, pragmaticamente, a comprovação de que necessito ler muito mais autoras.

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Livro enviado pela editora

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2 Comentários em “Resenha – A Amiga Genial”


Maria Cecília Porto Venturini em 03.09.2017 às 20:38 Responder

Só agora descobri você. Li muitas resenhas e agora vou segui-lo. Vou reler A amiga genial pois ganhei do meu filho os outros da série e já esqueci muita coisa desse primeiro.

Ragner em 03.09.2017 às 20:41 Responder

Seja muito bem vinda! Vou ler os próximos e serão resenhados também.


 

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