Resenha – A canção de Aquiles
por Patricia
em 09/10/19

Nota:

Poucas histórias sobreviveram ao tempo quanto as contadas por Homero nos poemas épicos “Ilíada” e “Odisséia”. A grandiosidade da obra vai além de seus 15.693 versos: a “Ilíada” é considerado o mais antigo documento ocidental, a obra que fundou a literatura deste lado do mundo.

O apelo da história de Aquiles, narrada na obra, já apareceu em diversas recontagens e formatos: filmes, séries e obras derivadas já surgiram para dar conta desse que foi considerado o grande herói da Grécia Antiga.

Como grande fã de mitologia grega e de tudo que envolve as obras de Homero, Madeline Miller chamou minha atenção porque enquanto nada de novo poderia ser dito sobre a Guerra de Tróia (a menos que alguma teoria de conspiração nova surgisse), Miller – professora de latim e grego – não conta a história de guerra. O foco é Aquiles e seu relacionamento com Pátroclo.

Há um debate antigo sobre a natureza do relacionamento entre os dois. Alguns dizem que eram grandes amigos e outros que eram amantes. Vale lembrar que na Grécia Antiga, o relacionamento entre homens era menos tabu do que hoje o que faria com que a segunda teoria não fosse totalmente impossível. É essa história que Miller vai nos contar com a glória de Aquiles e a Guerra de Tróia como pano de fundo.

Mais além, ela coloca Pátroclo como narrador da história. Renegado por seu pai e exilado para a corte de Peleu (pai de Aquiles) depois de acidentalmente matar um colega, ele é um jovem sozinho e estranho. Ali, ele conhece Aquiles que, aos 14 anos, já era visto como um herói e as profecias davam conta do papel essencial que ele teria no futuro da Grécia.

Eles se tornam amigos inseparáveis, dividindo o quarto (camas separadas), os estudos e, de vez em quando, o treinamento militar. Pátroclo não é páreo para Aquiles (ninguém parecia ser) e não tem em si a vontade de se tornar um guerreiro. Aquiles se torna seu protetor natural enquanto sua mãe, a ninfa do mar Tétis, odiava Pátroclo e tenta separá-los diversas vezes.

Quando Aquiles é enviado pelo pai para seu treinamento militar com Quíron – rei dos centauros – Pátroclo foge e vai junto. Ali, como qualquer adolescentes, eles descobrem muito mais sobre si mesmos do que suas aptidões militares ou, no caso de Pátroclo, a falta delas.

Aos que leram a “Ilíada”, já é sabido que é a morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor que vai disparar a ira de Aquiles e fazer com que ele mate Heitor e alcance a glória a que estava destinado tornando a profecia realidade. Miller aborda a amizade e o relacionamento entre Aquiles e Pátroclo de maneira extremamente sensível e capaz, mostrando um lado humano que pouco se esperava de um herói.

Lançada em 2013, “A canção de Aquiles” levou dez anos de pesquisa e quando foi lançado dividiu opiniões. Alguns críticos sentiram que Pátroclo foi criado para representar um homem (menino) sensível e que isso não existiria em uma Grécia que se preparava para lutar o que seria a maior guerra da época. De fato, em alguns momentos, Pátroclo parece um menino indefeso mais do que um príncipe exilado. Sua busca constante por Aquiles pode soar como inocente ou, quando ocorre repetidamente em uma mesma cena, um pouco desesperada.

Isso, porém, não diminui a leitura que tem um ritmo próprio e faz com que seja difícil de largar o livro, principalmente quando a guerra começa. A linguagem e a condução da história, bem como a escolha do narrador, fazem com que “A canção de Aquiles” apresente algo novo para uma historia que já foi contada e recontada diversas vezes. Grande feito para uma estreia.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – A canção de Aquiles”


 

Comentar