Resenha – A cor púrpura
por Patricia
em 16/01/19

Em 2016, o selo José Olympio republicou “A cor púrpura” de Alice Walker – um livro que marcou época quando foi publicado originalmente, na década de 80. Ambientado no sul dos Estados Unidos antes da Segunda Guerra (e antes do movimento pelos direitos civis), a obra nos apresenta a vida dos negros que pareciam viver no limbo entre a escravidão e a liberdade.

O livro é um compilado de cartas, a maioria escrita por Celie. Celie endereça as cartas, no começo, para Deus – a única “pessoa” que ela acredita que a escutaria. É nessas cartas e em suas próprias palavras mal escritas (já que ela é semi analfabeta) que descobrimos que a vida de Celie, desde muito cedo, foi uma tristeza pura. Órfã de mãe, ela é estuprada pelo pai e engravida duas vezes. As duas crianças desaparecem e ela acredita que o pai matou o filho e deu a menina para alguém.

Sua única alegria é sua irmã mais nova, Nettie. Nettie é inteligente, aprende as coisas rápido e entende com clareza o que acontece com a irmã. Quando um viúvo muito mais velho pede Nettie em casamento, o pai diz que Celie tem que casar antes por ser mais velha. A oferta? Celie tinha uma vaca. Albert, o viúvo, podia levar as duas.

A vida de Celie parece não ter trégua. Albert é um homem violento e bate nela para que ela “o obedeça”. Isso acontece até aparecer Shug Avery – uma cantora de má reputação que fica doente. O marido de Celie, Albert, é apaixonado por Shug e eles tiveram um caso e três filhos antes dele ser forçado pelo pai a casar com uma “moça de família”. Ele traz Shug Avery para casa para que possa cuidar dela.

Enquanto muitas mulheres esperariam brigas constantes pelo marido ter trazido a amante para dentro de casa, Celie e Shug eventualmente viram amigas. Mais do que isso, Celie parece reconhecer em Shug tudo aquilo que chamam de amor e que ela nunca esperava ter.

Aliás, as mulheres do livro formam um quadro belíssimo de sororidade e resistência. Elas desafiam o status quo à sua própria maneira e buscam apoio umas nas outras.

A história é triste, construída com a linguagem das pessoas mais simples e usando a realidade da época. Nas cartas de Celie, ela nunca pede nada a Deus, nem ajuda, nem salvação. Isso faz com que a história não tenha um tom exacerbado de “auto-ajuda” ou um viés novelesco. Quando Celie descobre coisas sobre sua família que mudam tudo em seu passado, ela escreve a Deus: “você deve estar dormindo.” São nessas frases simples que entendemos a extensão do que ela sente.

Mais além, a vida de Nettie como missionária na África acrescenta um pouco de “textura” com um enredo todo baseado em como os brancos estavam destruindo uma pequena tribo e não havia ação a ser tomada para impedir.

O feminismo intrínseco, o racismo histórico, um questionamento sobre religião e o papel das mulheres na sociedade em “A cor púrpura” são pontos cruciais para elevar a história de algo simples e triste a uma análise de uma época em que ninguém valia menos que uma mulher negra.

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