Resenha – A criança em ruínas
por Juliana Costa Cunha
em 11/03/19

Nota:

José Luís Peixoto é escritor português, daqueles que escrevem para nos emocionar e para nos tirar o fôlego. Sua escrita, mesmo quando não está escrevendo poesia, é poética. Nascido em Galveias, uma cidade com pouco mais de mil habitantes, tem o quintal de casa e a família como fios condutores de sua escrita. Aliás, Galveias é o título de um de seus livros, sendo o mesmo premiado em 2016 com o Prêmio Oceanos. Seu livro de estreia é intitulado Morreste-me, um tratado de despedida com seu pai. Em 2017 recebeu o Prêmio José Saramago por sua obra Nenhum olhar.

Toda essa contextualização para dizer que eu sempre paquerei com os títulos dos livros deste moço, mas só agora li seu primeiro de poesias. Estou atrasada, mas vou correr atrás do prejuízo, por que Criança em Ruínas é lindo demais! A morte é também o tema principal deste livro, sendo este um tema recorrente em sua obra.

na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco.

Li uma entrevista com ele publicada no Estadão e me deparei com a seguinte frase: “De certa forma, 16 anos depois, este livro faz parte da ‘infância’ da minha escrita, no melhor sentido desse termo. Mas a mina de onde o extraí já fechou. Hoje, não seria capaz de escrever muito do que está nessas páginas. Daí que lhe encontre especial valor. E, no entanto, neste livro, encontra-se com facilidade as raízes daquilo que escrevi mais tarde, que estou a escrever agora. Sem este livro, eu não seria eu.”

Fiquei encantada com a forma doce e lírica com que questões como a morte, o luto, as ausências e as alegrias de uma vida estão postas neste livro. Ele é um livro triste. Mas especialmente belo. Traz indagações sobre as diversas possibilidades de ruínas em nossas vidas, no caso específico na vida de uma criança. Mas me tocou muito mais profundamente, nas possibilidades desta criança em nós depois de adultos. Parece que a todo momento ele está nos questionando como lidar com o tempo, as idades e com a vida como um todo.

Aqui estão presentes a passagem do tempo, tendo na primeira parte a criança e suas brincadeiras e descobertas. Uma segunda parte que apresenta um tom mais denso e cheio de dúvidas sobre o futuro. E, na terceira parte, temos a contemplação do filho, que remete ao amor juvenil e solidões.

Senti, ao ler este livro, que o autor faz um constante trajeto de saída de seu lugar de origem para sempre retornar a ele na busca por si mesmo e por fragmentos de memórias afetivas guardadas em lugares e em pessoas. É de uma sensibilidade incrível. Eu preciso ler mais deste autor. E esta tentativa de resenha não pode terminar com minhas palavras. Que fale então o autor.

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade.” 

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