Resenha – A depressão tem sete andares e um elevador
por Juliana Costa Cunha
em 09/09/19

Nota:

Um livro escrito na vertical. Diagramação e desenhos (feitos pela própria autora) pensados também na vertical, para que ao lermos, tenhamos a sensação da subida e da descida do elevador.

A depressão tem sete andares

e um elevador.

Cabem dez de mim

na plataforma.

Doze,

se nos espremermos,

mas não é preciso.

Aqui há

apenas uma.

As demais desertaram.

Isabela Sancho é do interior de São Paulo, nascida em 1989. Formou-se em arquitetura. Foi morar em Milão e voltou a São Paulo. Escreve poemas, modela bonecas e projeta jardins, como nos apresenta a orelha de seu livro.

Fui lendo seus poemas e sentindo a gravidade estabelecida pelo elevador. Esse movimento vertical que pode ser de transporte ou de deslocamento. De ascensão ou queda.

Não sei dizer
se essa
velocidade acelera
tanto quanto
a gravidade.
O elevador se move
tecnológico,
novo.
Com amortecedores,
silenciadores de perigo.
Quanto mais quieto,
mais grave.
Ocultamento
violento e suave.
A vertigem
de um refluxo
é meu estômago
sem peso,
querendo ter
permanecido lá em cima.
O quarto subsolo não fica
no hemisfério polar.
Mas a noite cai
às quatro da tarde
e o dia
mal sobe às duas.
Nasce o dia sem nascimento.
Nasce o dia
como uma emenda
e se nada se encerra
não há recomeço.
Pernas feitas
de gravetos.
Os braços, fios
de macarrão.
Fico boquiaberta
para descansar o rosto.
Eu preciso me deitar
só um pouco
de hora em hora.
Minha dobra de joelhos
cede o chão
e volta comigo.
Elevador demonstrativo,
um pulo
seria o único.
No quinto subsolo,
uma faixa de pedestres
em aguardo.
Por nada fica verde
o semáforo.
Talvez tenha chovido
e a luz ainda
não tenha voltado.
Um pé desce a guia,
a ambulância entra
urgente na minha frente.
Trocamos um xingo
Desgovernada.
Com a sirene louca
de um instante.
Se fosse um acidente,
estaríamos justificadas.
É curioso estar viva,
conto às piscadelas de um cão
que é todo ouvidos
às minhas histórias.
O sexto subsolo
está tomado de mesas
e cadeiras empilhadas.
Quase chegam ao teto,
quase caem ao chão.
Há algo que queira
estar de mudança?

Temos aqui uma poesia cartográfica e uma forma de falar de si, mas usando a terceira pessoa. Os poemas aqui inseridos percorrem sete andares, trazendo imagens e lugares reais, ou aqueles que nossa imaginação cria.

***

Livro enviado pela editora

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