Resenha – A estrela de prata
por Patricia
em 05/02/18

Nota:

 

Há alguns anos li O castelo de vidro de Jeannette Walls – seu livro de estréia no qual contava a insana historia de sua família – com pais negligentes que, muitas vezes, preferiam viver na rua. Uma cena que nunca esqueci é como ela e a irmã comeram um bloco de manteiga com açúcar porque era tudo o que tinha em casa. Quando Jeannette foi internada depois de tentar cozinhar e botar fogo no seu próprio vestido e teve queimaduras intensas do lado direito do corpo, ao invés de pagar o hospital, seu pai colocou seu irmão mais novo para causar um tumulto para que pudesse retirar Jeannette do hospital sem que ninguém visse. A família estava sempre às margens de ser separada pelo serviço social mas quando isso estava para acontecer, eles simplesmente se mudavam para outra cidade. Tudo o que possuíam cabia em um carro velho.

O livro foi adaptado para o cinema em 2017 com Brie Larson no papel de Jeannette e nomes de peso como Naomi Watts e Woody Harrelson como os pais.

A estrela de prata foi o último livro lançado pela autora que tem outras duas obras publicadas (a Recorda lançou Cavalos Partidos no Brasil mas Dish: The inside story of the world of gossip segue sem tradução).

Em A estrela de prata, Walls fala de uma família disfuncional – os Holladay na década de 70. A mãe sonha em ser uma cantora de sucesso e com duas filhas pequenas – Jean e Liz – isso pode ser complicado. Por isso, ela deixa as meninas de 12 e 15 anos, respectivamente, por conta própria por vários dias enquanto busca uma oportunidade de se tornar a estrela que acredita ser. As irmãs basicamente se criam sozinhas e já parecem acostumadas a esta rotina.

Tudo isso muda quando a mãe tem uma crise e desaparece por mais de uma semana. Vizinhos e a polícia aparecem questionando o paradeiro da mãe e as meninas decidem fazer uma visita a um tio distante na pequena cidade de Byler. A família da mãe era muito tradicional e, no passado, basicamente era dona da cidade. Ruas, prédios, escolas têm o nome da família Holladay em Byler.

Liz e Jean decidem trabalhar para ajudar nas contas da casa e começam a fazer pequenos trabalhos para Jerry Maddox – o atual gerente do moinho, que tem uma péssima fama e atitudes de mafioso. As coisas ficam bem ruins e Liz e Jean acabam causando um tumulto considerável na cidade. A visita a Byler também ajuda a pequena Jean, que narra a história, a conhecer mais sobre a família de seu pai – sobre a qual sua mãe lhe contou muito pouco.

O movimento civil dos negros havia acontecido na década anterior, mas Byler é tão atrasada e tradicional que só agora estão discutindo a integração de brancos e negros. Esse pano de fundo, infelizmente, é pouco explorado na história.

Que a autora escreve bem é inegável. Porém, Walls não parece capaz de produzir cenários e personagens que não sejam moldados em sua própria realidade e depois de ler um livro da autora ficamos com a sensação de que já lemos todos: os paralelos inescapáveis entre O castelo de vidro e A estrela de prata fazem com que a leitura do segundo seja cansativa e previsível. É impossível não imaginar que a história do segundo é como se fosse uma fantasia da pequena Walls enquanto tentava escapar da infância maluca e difícil que teve.

Não é um crime escrever sobre um mesmo mote sob vários pontos de vista. De certa forma, vários autores têm um estilo e uma linha que faz com que muitos de seus livros sejam parecidos superficialmente. Harlan Coben é um deles. Liane Moriarty é outra. Moriarty ao menos tenta criar panos de fundo que têm se tornado mais interessantes à medida que seus livros evoluem. A estrela de prata não me parece uma evolução de O castelo de vidro.

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