Resenha – A filha perdida
por Patricia
em 07/12/16

Nota:

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Elena Ferrante é uma autora que tem causado comoção nos últimos anos. O lançamento de sua série Napolitana – que no Brasil é publicada pela Biblioteca Azul – foi um fenômeno mundial que já vinha sendo cultuado na Itália – seu país de origem. Além do talento para a escrita, um outro aspecto de Ferrante chamou a atenção do público e, de tabela, dos jonalistas: o fato de que Ferrante era um pseudônimo não se sabe de quem. Com um público acostumado com as redes sociais em que tudo é escancarado e nada mais é privado e pessoal (nem mesmo J.K Rowling escapou de ter sua identidade revelada ao tentar escrever como Robert Galbraith), o mito de “quem estava por trás dessas obras de sucesso” cresceu junto com o sucesso dos livros da autora pelo mundo.

Com a recusa de Ferrante de revelar sua identidade real, o mito em torno de suas obras cresceu. Tanto que um jornalista italiano se meteu a ser detetive e foi ativamente investigar a autora para tentar descobrir quem ela era. O artigo resultado dessa pesquisa causou novo furor no mundo editorial com pessoas defendendo ou atacando a atitude.

Quer você concorde ou discorde da atitude do jornalista, é inegável o impacto de Ferrante no mundo literário.

“A filha perdida” foi lançado em 2006, 5 anos antes da série avassaladora de Ferrante. A história nos apresenta Leda, uma mulher de quase 50 anos cujas filhas mudaram para o Canadá. Sozinha, ela vai para o litoral da Itália para algumas merecidas férias. Enquanto aproveita seus momentos de introspecção, Leda nota uma família que lhe parece muito similar à sua família original – a qual ela sente certo orgulho de ter deixado em Florença e se tornado uma pessoa diferente.

Por curiosidade, Leda passa a observar essa família e seus destinos irão se cruzar de maneira totalmente inusitada. A família italiana típica que também está passando férias na região, tem como personagem principal a jovem Nina. Mãe de Elena, Nina tem 21 anos e passa seus dias com a cunhada esperando o marido aparecer nos finais de semana. Ao colocar ambas as mulheres frente a frente, Ferrante as fará confrontar o que é ser mãe: o peso, as alegrias, as escolhas e os sacrifícios. A fantasia idílica que Leda esperava encontrar em suas férias, acaba se transformando em uma análise de sua vida e de como sua vida chegou nesse ponto atual.

Se tem algo que podemos dizer sobre Ferrante é que suas protagonistas são extremamente sinceras e despidas – no sentido de permitirem que o leitor saiba de tudo o que pensam. Nas páginas da obra, temos uma visão completa do que Leda pensa – algumas coisas, inclusive, que muitas pessoas esconderiam até de si mesmas. Ela reconhece, por exemplo, que se sente aliviada pelas filhas estarem longe ou que quando elas eram pequenas, se sentiu incomodada ao perceber que não atraía mais os olhares masculinos – dirigidos agora às suas filhas. Em frases curtas, a protagonista nos permite vislumbrar seus mais profundos pensamentos, sem censura e sem culpa. O custo dessa transparência com si mesmo é o autoconhecimento e Leda pagou caro para alcançá-lo conforme descobriremos à medida que a história acontece.

A autora nos apresenta o passado de Leda através de flashbacks que aparecem sem aviso, como pensamentos soltos. Como é a narradora, Leda é a única personagem com esta prerrogativa.

Em “A filha perdida”, Ferrante subverte o pensamento padrão do que é ser mãe trazendo um questionamento através das principais personagens femininas: ser mãe é ser como Leda que precisava se encontrar e decidiu que ia fazer isso às custas de sua família? Ou é ser como Nina que admite que está cansada, que abre concessões ao seu casamento mas não consegue se distanciar o suficiente? Ao final, Ferrante não nos oferece uma resposta, ela nos apresenta mulheres com conflitos reais que são, muitas vezes, banalizados ou desdenhados pela sociedade.

Através de um romance curto, que parece despretensioso no começo, Ferrante consegue nos fazer repensar muito do status-quo. Podemos não saber o nome real da autora (ou autor), mas a qualidade do trabalho é inegável.

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O livro foi enviado pela editora. 

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3 Comentários em “Resenha – A filha perdida”


Ademar Amancio em 13.12.2016 às 12:45 Responder

Que estranho! Um escritor,ou escritora, que ninguém conhece.A própria situação parece enredo de um romance.

Patricia em 13.12.2016 às 12:51 Responder

Sim…acho que é até por isso que tanta gente está interessada em descobrir que ela/ele é. Porém, a verdade é que quem quer que seja, escreve demais! 😀

Andreia em 20.02.2017 às 01:42 Responder

Olá! Gostei muito desse livro e da forma como a autora aborda a maternidade. Fiz post no meu blog também. Bjs Andreia http://www.mardevariedade.com


 

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