Resenha – A fúria
por Juliana Costa Cunha
em 11/12/19

Nota:

Primeiro livro da Silvina Ocampo publicado no Brasil. Autora nascida em Buenos Aires em 1903 que faleceu aos 90 anos e escreveu contos, poesia, teatro e literatura infantil (que confesso, depois de ler A fúria fiquei bem curiosa pra saber como são esses livros infantis da autora).

Silvina foi casada com Adolfo Bioy Casares e ambos conviveram muito tempo e muito próximos de Jorge Luis Borges. Esse trio se reunia sempre na casa do casal para longas conversas noite a dentro. Os dois autores são sempre uma referência na literatura. Silvana, ao que parece, começa a ganhar seu destaque.

É importante registrar que, apesar do casamento e da proximidade com Borges, a autora ao longo de sua vida foi se afastando da forma literária desses autores e criando a sua própria voz literária. Ao ponto de Bioy afirmar certa vez sobre a obra dela: “não se parece com nada, é como se tivesse sofrido influência apenas de si mesma”.

A família Ocampo é uma família de classe alta da Argentina e muito influente naquele país, da qual a autora sempre tentou se manter distante (ou será que foi distanciada?). Silvina é irmã mais nova de Victoria Ocampo, referência intelectual do país e que tinha várias questões com a dupla Bioy e Borges. Por que estou falando tudo isso? Porque depois de ler A fúria me parece que as questões familiares são marcantes da escrita da autora.

Neste livro nós temos muitos contos onde a/o narrador/a é uma criança. Ou se desenrola no âmbito familiar. Aqui temos a/o narrador/a sempre de caráter duvidoso. Não há julgamento no que é narrado. Por mais brutal que seja. Esse julgamento a autora deixa para quem a lê.

Silvina coloca seu olhar voltado para a fresta, sobre aquilo que fica embaixo do tapete. Ela desconstrói a família feliz, a infância feliz e sua inocência e as relações humanas pautadas pela bondade. É o olhar voltado para o choque, o que quebra e o que não se encaixa.

Ao ler os contos me peguei incomodada com muitas passagens. Inclusive porque a autora não usava o politicamente correto. Não aliviava no peso do que escrevia. E é possível que alguém desatenta/o à leitura não acesse a ironia de sua escrita e todas as críticas nela postas. Entretanto, em todos os contos há um recorte de classe muito bem demarcados. Bem como questões de gênero e uma fortíssima crítica social.

Eu adorei essa leitura. E quero mais.

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Livro enviado pela editora

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