Resenha – A grande morte do Conselheiro Esterházy
por Juliana Costa Cunha
em 20/01/20

Nota:

O Conselheiro Esterházy passa 272 dias para morrer. Durante estes 272 dias de sua morte, seu mordomo, que passou sua vida inteira ao lado do Conselheiros Esterházy nos conta sua história de solidão e servidão.

Ainda criança, o mordomo, narrador desta história, foi conduzido por outro mordomo, já bem velho, até o quarto do Conselheiros Esterházy e lá permaneceu até o dia em que o Conselheiro lhe informa que estava morrendo.

Durante todo o livro não sabemos o nome do mordomo que nos conta sua história. Ele se apresenta sempre como a minha pessoa. Também sua família, que lhe entrega ainda criança para o mordomo velho, não é nominada. São apenas papai, mamãe e irmãos. A única pessoa a ter nome neste romance é o Conselheiros Esterházy.

O autor Alberto Lins Caldas – meu conterrâneo e que, até então, não tinha lido nada dele e que agora me pego pensando ‘ainda bem que tenho tempo pra resolver isso’ – nos conta uma história de solidão e servidão. Nos apresenta um livro com tons terrosos, ferruginosos, escuros. Nos traz um livro com cheiro de charutos e fezes. Nos apresenta um quarto sombrio, habitado pelo Conselheiros Esterházy, uma figura com hábitos estranhos, horários certeiros e um tanto quanto irreal.

Ao longo dos 272 dias da morte do Conselheiros Esterházy, e diante do pânico do mordomo que sempre o serviu, vivenciamos uma narrativa circular, repetitiva, cheia de jogos de espelhos, onde os opostos estão sempre se cruzando e em dado momento se misturam. A monotonia da vida, a bondade transformada no mal e o fato de uma morte que poderia ser como qualquer outra morte, se transformar em algo grandioso estão lá.

Em A Grande Morte do Conselheiros Esterházy o autor nos coloca diante do horror dos pequenos atos cotidianos transformados em coisas de proporções gigantescas, dada a importância que damos a elas. Ou, mais do que isso, àquilo que fomos treinados a ter como de grande importância e depois não sabemos mais o que fazer com elas.

272 dias de uma morte, são quase os 280 dias de uma gestação. E o autor, fazendo uso de uma narrativa em que apenas personifica o Conselheiro e não quem o serve e faz uso de uma linguagem com palavras cortadas e quase sem pontuação, nos coloca diante do fato da insignificância das pessoas. Ou de algumas pessoas.

Para mim este é um livro para discutir sobre a servidão humana. E, no caso do mordomo, para pensar o que fazer com sua vida depois de uma vida inteira servindo a alguém e na qual está tão inserido que tem esta como a sua vida real. O que fazer quando a morte, que é o reino do desconhecido, passa a ser um ritual de preparação para a vida?

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Livro enviado pela editora

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