Resenha – A guerra não tem rosto de mulher
por Patricia
em 11/07/16

Nota:

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É inegável que o nome de Svetlana Aleksiévitch ganhou força no mundo editorial brasileiro depois que ela foi premiada com o Nobel de Literatura em 2015. Como nenhum livro da autora havia sido editado no Brasil, nos restavam apenas alguns trechos traduzidos de suas obras supostamente incríveis. A Companhia das Letras não perdeu tempo e 9 meses depois do prêmio lançava o primeiro livro de Aleksiévitch em português: “Vozes de Tchernóbil”. A segunda obra traduzida foi “A guerra não tem rosto de mulher” – tema da nossa conversa hoje.

Em “A guerra não tem rosto de mulher”, Aleksiévitch trata de um tema que já conhecemos: a guerra. Mais precisamente, a Segunda Guerra Mundial. Partindo dessa premissa simples podemos até questionar o que poderia ser falado sobre a guerra que ainda não tenhamos visto antes. Será que ainda existe algum ângulo diferente do que já vimos?

A maior parte da literatura de guerra tende a ser narrada pelas vítimas ou pesquisadores do assunto. Os sobreviventes dos campos de concentração, por exemplo, deixaram diversos relatos do que viram e viveram. Um dos mais famosos (e sensacionais) é do recém falecido Elie Wiesel (sobre o qual já falei aqui). Há ainda pesquisas sobre os grandes nomes que fizeram a guerra – de ambos os lados.. Mas sabemos relativamente pouco sobre os soldados em si e suas vozes tendem a ser afogadas em algum lugar desse mar de relatos.

Aleksiévitch – nascida na Bielorússia – conheceu de perto mulheres que lutaram pelo Exército Soviético contra os alemães. Estima-se que o Exército Soviético chegou a contar com 1 milhão de mulheres em suas linhas – o maior contingente feminino da época. É aqui o ângulo novo da guerra que Aleksiévitch vai nos apresentar: através de trechos em primeira pessoa inseridos entre os relatos das mulheres que entrevistou, ela explica o que a levou a esse tema, como foi o processo de entrevistas e até como ela mesma foi afetada por essas conversas. Será através dessas mulheres que veremos a guerra sob um prisma totalmente diferente.

A escolha de uma voz feminina funciona de contraponto ao que denominamos de “masculino”: guerra, mortes honrosas, sangue. Vozes femininas tendem a ser uma minoria silenciosa quando falamos de guerra. Aleksiévitch reconhece a necessidade de abrir espaço para essas mulheres e denomina suas notas de “anotações da alma” – uma tentativa de entender como a guerra pode mudar a alma, a essência de uma pessoa.

Em geral falo mais sobre a morte. Sobre a relação dessas mulheres com a morte – ela estava sempre circulando por perto. Tão perto e habitual quanto a vida. Tento entender: como era possível sair sã e salva em meio àquela infinita experiência de morte? Vê-la dia após dia. Involuntariamente experimentá-la. (pág. 263)

Os relatos são variados como as lembranças tendem a ser: podem ser reais ou não (e a autora comenta sobre isso também), mas dizem alguma coisa ali sobre o que fica na nossa memória quando tudo acaba. Uma moça lembra-se muito bem de participar de sua primeira execução…e de como ficou menstruada no front e achou que tinha sido ferida (era sua primeira menstruação); outra recorda-se de quando voltou para casa, para uma família que não a reconheceu e que a tinha “enterrado”: um erro do exército havia anunciando-a como morta. Há ainda um relato fantástico sobre um parto na zona neutra militar – uma réstia de vida rodeada de morte. Todas as histórias, porém, mostram que os atos de bravura e medalhas cobraram um preço bem alto.

Mandaram-nos para a escola de infantaria de Ryazan. Saímos de lá como comandantes da seção de metralhadoras. Uma metralhadora é pesada, carregávamos nós mesmas. Como um cavalo. De madrugada. Montávamos guarda e captávamos casa ruído. Como linces. Estávamos atentas a cada sussurro…É como se diz: na guerra você é metade humano, metade animal…É assim. De outra forma você não sobrevive. Se você for só humano, não sai vivo. Queima a cachola! Na guerra é preciso lembra de algo a respeito de si. Algo…Lembrar de algo dos tempos em que o ser humano ainda não era completamente humano…Não sou uma grande erudita, sou uma simples contadora, mas disso eu sei. (pág. 89)

Naquele dia continuei tirando os feriados e as armas do campo de batalha. Me arrastei até o último, ele estava com o braço destroçado. Pendurado por uns pedacinhos…pelas veias…coberto de sangue…Precisava amputar o braço com urgência para fazer o curativo. Não havia outra maneira. Mas eu não tinha nem faca, nem tesoura. A bolsa chacoalhava tanto que elas tinham caído. O que fazer? Cortei aquela carne com os dentes. (pág. 185)

A autora esteve na Flip 2016 e participou de uma conversa sobre suas obras. Recomendo ouvir todo o áudio mas marquei no link o começo de um dos trechos mais marcantes deste livro lido pelo entrevistador (os primeiros minutos da entrevista foram dedicados a “A guerra não tem rosto de mulher)”.

Aleksiévitch nos apresenta às heroínas não reconhecidas de uma das maiores Guerras de todos os tempos. Ela crava um espaço mais do que merecido através de relatos intensos, diretos e crus que nos dão uma dimensão muito mais real e prática da guerra e de como ser mulher em um ambiente que simplesmente não via isso como natural. A dicotomia entre ser mulher e soldado é um dos principais pontos dos relatos. Muitas comentam que sua maior tristeza era se sentir menos mulher, masculinizadas ao máximo (até usando cuecas) e perdendo ainda mais o que consideravam parte essencial de si mesmas.

A leveza da autora é um contraponto importante ao peso do tema. Por trás dos relatos, entendemos melhor, também, a máquina soviética: a propaganda que levou famílias inteiras à guerra em um sacrifício insano em nome da pátria que aprenderam a amar.

Uma obra em que tudo funciona alcançando para um resultado fantástico.

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O livro foi enviado pela Editora. 

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