Resenha – A livraria dos finais felizes
por Patricia
em 10/08/16

Nota:

alivraria

 

Vamos falar de água com açúcar….aquela água com gosto de quase nada, levemente adocicada que ninguém bebe de verdade. A definição clara de uma coisa sem gosto, sem peso. A definição cabe, também, para A livraria dos finais felizes.

Da lista de clichês disponíveis na ficção/romance escrita por mulheres que muitos chamam de chick lit, a sueca Katarina Bivald decidiu usar quase todos. Temos: o casal homossexual com um deles sendo lindo ao ponto de fazer mulheres enlouquecerem (porém, nunca se beijam e não há nenhuma cena de troca de carinho entre eles, beijos, nada); a solteirona da cidade que também é uma beata; o jovem confuso sobre sua sexualidade; o bêbado em recuperação com um drama familiar; a mãe solteira; a dona de casa sem muito o que fazer e que decide policiar a cidade e o cara lindo-maravilhoso-misterioso-mal humorado que parece não dar bola para ninguém. Tudo isso girando em torno de Sara, uma jovem sueca que chegou na cidade de Broken Wheel em Iowa para passar alguns meses visitando sua amiga/correspondente, Amy.

Amy e Sara trocam cartas por algum tempo e um de seus assuntos preferidos é livros. Ambas são ávidas leitores e enquanto Sara é uma livreira em sua cidade na Suécia, Amy coleciona livros. Entre trocas de referências literárias, elas acabam também desenvolvendo uma amizade e dividem experiências e um pouco de suas vidas. Amy, então, convida Sara – que nunca havia saído de seu país natal – para visitá-la em Broken Wheel – uma cidade pacata do interior de Iowa com menos de 700 habitantes.

Quando chega na cidade, Sara descobre que Amy faleceu há poucos dias – e isso não é spoiler porque é o primeiro capítulo do livro – fiquem tranquilos. Essa morte muda todas as circunstâncias da visita de Sara. De repente, ela está em uma cidade em que não conhece ninguém (pessoalmente, porque Amy já havia contado algumas coisas sobre algumas pessoas dali) e sem ideia do que poderia fazer nos próximos dois meses (tempo que tinha se programado para passar com a amiga, na casa dela).

Aos poucos, claro, Sara vai conhecendo as pessoas sobre as quais antes só havia lido nas cartas de Amy (algumas cartas, aliás, são transcritas para o leitor – apenas as de Amy. Nunca vemos as respostas de Sara a menos que Amy comente algo específico). Ela faz alguns amigos e, quando descobre a vasta coleção de livros de Amy que agora não tem dono, ela decide abrir uma livraria – a primeira da cidade como forma de agradecer a hospitalidade. Sara acredita no poder dos livros para reabilitar a cidade a algo novo.

O ponto mais interessante do livro, para quem gosta de ler, é encontrar uma protagonista que também gosta de ler. As referências à obras clássicas são variadas e há diversas passagens sobre a importância ou sobre como é mais divertido ler do que falar com as pessoas. Qualquer amante de livros se identificaria logo de cara. Na teoria.

Mas Sara também sofre do mal que se abateu sobre a literatura chick lit e jovem há alguns anos: o efeito Crepúsculo. Este efeito nada mais é do que aquela coisa extremamente chata que algumas autoras fazem de criar personagens femininas que, basicamente, têm a alta estima mais baixa do planeta. Elas nunca são boas o suficiente para o cara mais lindo do mundo que, surpresa, é solteiro e parece MESMO não ligar para elas validando a baixa auto-estima. Só que, PULEM DAS CADEIRAS, ele gosta dela!! E aí ela passa a se sentir linda e maravilhosa porque, afinal, um homem disse que é isso que ela é. Desde Crepúsculo, portanto, tivemos uma miríade de personagens femininas (não todas, obviamente) que apostam em “sou patética” muito mais do que “sou foda”. Difícil imaginar Hermione Granger se achando menos inteligente que os meninos da sala. Porque há maneiras de ser foda sem ser uma completa imbecil, também.

A junção de todos esses clichês ridículos, além de um enredo mais previsível do que novela das 8, rendeu uma leitura recheada de comentários sarcásticos e uma vontade de parar de ler a cada página virada. É uma pena. Eu realmente gostaria de ver uma leitora, uma mulher que gosta de ler tanto, inteligente e, até divertida, se apoiar nisso ao invés de diminuir essas características sempre que um cara bonito aparece. Pelo menos Bivald nos poupou das descrições extensas sobre os maravilhosos cabelos dos rapazes – algo que parece ser bem típico de romances jovens (comentei um pouco sobre isso na resenha sobre o 3o livro da série A maldição do tigre).

Leia por sua conta e risco.

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O livro foi enviado pela editora.

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