Resenha – A luneta âmbar
por Patricia
em 18/08/15

Nota:

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A luneta âmbar é o terceiro volume da trilogia Fronteiras do Universo de Philip Pullman. Já li e resenhei o primeiro e o segundo livros da série aqui no Poderoso. Spoiler um: adorei ambos. Spoiler dois: talvez seja melhor ter lido os livros antes de ler essa resenha caso você prefira não saber de certas informações sobre o livro. Infelizmente, é impossível resenhar o 3o livro de uma série sem entregar alguma coisas dos volumes anteriores.

A luneta âmbar vai trazer todos os personagens que já conhecemos: Iorek retorna com seus ursos de armadura (pulos de alegria!) e vai se juntar a Will na busca por Lyra que foi sequestrada pela Sra Coulter e tem sido mantida à base de veneno para dormir em uma vila afastada de tudo no meio do Himalaia. Temos também uma contextualização muito interessante sobre a Autoridade: esse “ser” criador de tudo, delegou recentemente alguns poderes a um anjo que, claro, agora está muito poderoso e pretende instaurar um controle constante e total. Ou seja, o mundo viveria sob uma constante inquisição religiosa.

Nesse volume, tudo será posto à prova: a faca de Will, as fronteiras do mundo e as consequências de fazermos o que achamos que é certo. Pullman quase que vira a história de ponta cabeça e quem começa como vilão, termina como herói, ou pelo menos o leitor fica um pouco confuso sobre a real culpa de certos personagens. Todos têm uma chance de se redimir e Lyra e Will descobrem que só existe de verdade uma força que se mantém acima de todo o resto. É realmente uma história muito bonita, analisando apenas o enredo superficial. Pode, muito bem, ser a história de dois jovens vivendo uma aventura para descobrir valores que não conheciam antes como amizade, família e amor.

Mas Pullman fecha a trilogia com uma obra cheia de ação e mensagens nas entrelinhas. As metáforas sobre religião são ainda mais fortes nesse terceiro volume. Lyra é comparada a Eva e a Igreja decide que ela precisa morrer antes de ser tentada porque a profecia diz que se ela for tentada, ela cairá na tentação. Portanto: sem Lyra, sem pecado original. E é bem interessante notar a frieza com que líderes religiosos decidem assassinar uma criança para que nada mude. Nesse ponto, Pullman levanta temas como: Qual o limite da religião? Quem deve ser responsável por policiar esse limite?

O questionamento da religião permeia toda a obra. E isso não é uma tarefa fácil ou simples quando estamos falando de uma obra sobre dois jovens de 12 anos e uma faca que abre janelas entre mundos diferentes.

– Quando deixou de acreditar em Deus – prossegui ele -, você deixou de acreditar no bem e no mal?

– Não. Mas deixei de acreditar que havia uma força do bem e uma força do mal que existissem fora de nós. E passei a acreditar que bem e mal são nomes que se dá ao que as pessoas fazem, não para o que elas são. Tudo o que podemos dizer é que uma ação é boa porque ajuda alguém, ou que é má porque prejudica. As pessoas são complicadas demais para terem rótulos tão simples. [pág. 533]

Além disso, gosto que Pullman coloquem homens e mulheres no mesmo patamar de ação e inteligência. Lyra e Will se complementam muito bem – ele é ágil, rápido e ela é inteligente e corajosa. Um não perde nada para o outro. Assim como a Sra. Coulter e o Lorde Asriel. Mary Malone é uma cientista daquelas destemidas.

A comparação mais clara para mim é de Pullman com Lewis Carroll – lendo Alice no País das Maravilhas, é possível encontrar elementos similares: um mundo diferente onde o normal é outra coisa, personagens dignos de fantasia infantil, humor, ação e uma pitada de filosofia para completar um enredo que se torna mais completo a cada capítulo. Além disso, cada parte da história de Alice carrega sua própria simbologia. É fácil encontrar textos sobre Alice analisados sob prismas diversos. Pullman nos apresenta uma história com as mesmas possibilidades.

Fronteiras do Universo é definitivamente uma série para ser relida no futuro, mas para quem não quer analisar as metáforas, aqui está uma obra que entretém com personagens bem criados, bem desenvolvidos e interessantes de verdade. Além de ação e enredos complexos na medida certa. Excelente pedida!

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2 Comentários em “Resenha – A luneta âmbar”


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Marcos Marcolyn em 10.10.2019 às 02:43 Responder

Resumindo, o que aconteceu no final? Eu quero muito saber sobre isso é já faz tempo que procuro respostas e não tenho sobre. Poderia me explicar.

E parabéns pelo o resumo, foi o melhor que já vi 👏👏👏👏👏

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Patricia em 20.10.2019 às 11:13 Responder

Entendo que toda a trilogia tem uma pegada forte de religião e é muito influenciada pelo ateísmo. O final seria Deus morrendo e o mundo de Lyra ficando exatamente igual. Meio que a “queda” que aprendemos ser ruim (pecado), ele coloca como algo, na verdade, positivo. ALIÁS, saiu no Brasil “O livro das sombras”, uma nova trilogia que expande esse mundo de Fronteiras do Universo. 🙂


 

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